Ttulo: Adorvel Aventureira.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1983.
Ttulo Original: "The Heart Triumphant"
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
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Barbara Cartland
Adorvel aventureira
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original:
"The Heart Triumphant"
Copyright: (c) Cartland Prometions 1976
Traduo: Lygia Junqueira
Copyright para a lngua portuguesa: 1983 Abril S. A. Cultural e 
Industrial - So Paulo
Composto e impresso em oficinas prprias


CAPITULO I
1793

O vento sacudia as venezianas e entrava sob as portas da estalagem. Na
saleta particular, o homem sentado diante da lareira estremeceu.
Era natural que houvesse tempestade no canal, em janeiro, e qualquer 
possibilidade de fazer a travessia para a Inglaterra era improvvel, pelo 
menos nas vinte e quatro horas seguintes.
Sheldon Harcourt sabia que tinha tido sorte em obter acomodaes 
confortveis e uma saleta particular no Hotel d'Angleterre, em Calais.
Monsieur Dessin, o proprietrio, era assediado por visitantes, a maioria 
composta de ingleses que fugiam da Frana e voltavam para seu pas, com a 
maior pressa possvel.
A notcia da execuo do rei francs, Lus XVI, caiu sobre os ingleses 
como uma bomba.
Em Londres, as notcias foram recebidas, a princpio, com descrena e 
estupefao; depois, com horror; finalmente, com clera.
Na Frana, para os turistas que comeavam a acreditar que o pas ia se 
acalmar sob a Conveno, isso significava perigo de priso.
Era bvio, at mesmo para o mais obtuso dos viajantes, que a Inglaterra 
ia declarar guerra  Frana.
Mas Sheldon Harcourt sentia uma grande relutncia em aceitar o inevitvel 
e, usando suas prprias palavras, em "atravessar o canal na disparada".
Porm, seus amigos franceses lhe disseram que no havia alternativa. O 
massacre de aristocratas, bispos e padres, no ms de agosto anterior, 
assim como as atrocidades dos septembriseurs transformaram Paris num 
lugar de horror.
s vezes, Sheldon Harcourt achava que nunca esqueceria os gritos
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de pessoas que ele conhecia e amava sendo arrastadas de suas casas para 
as prises que se esvaziavam rapidamente, para fornecer novas vtimas  
multido.
Mesmo assim, por mais que desejasse sair do pas onde passara os ltimos 
cinco anos e que considerava como seu lar, Sheldon tinha um jeito 
inconfundivelmente ingls, ali sentado na poltrona, sentindo o calor da 
lareira, as chamas iluminando-lhe o rosto.
Era difcil pensar que houvesse um homem mais belo e vestido com maior 
elegncia.
Embora tivesse viajado durante trs dias exaustivos, por estradas ruins e 
lamacentas, dava a impresso de estar pronto para ir a uma festa. Suas 
roupas lhe assentavam perfeitamente, e as usava com uma elegncia 
natural, essencialmente inglesa.
Fitando as chamas, seus olhos azuis tinham uma expresso sria, mas 
muitas vezes brilhavam, como que zombando da vida. Quando seu sorriso 
cnico lhe torcia os lbios, acentuava as rugas entre o nariz e a boca.
Seus pensamentos foram perturbados quando a porta se abriu e monsieur 
Dessin entrou, trazendo uma bandeja com uma garrafa de vinho e um copo.
- Espero que esteja bem acomodado, milorde.
Para o francs, todos os ingleses eram nobres, assim como, para os 
ingleses, todos os estrangeiros eram considerados inferiores e, a maior 
parte das vezes, meio dbeis mentais!
- Sim, estou bem instalado, mas espero que o jantar no demore.
- Claro que no, milorde. Minha mulher est preparando uns pratos 
especiais para o senhor. Ao mesmo tempo, pedimos que seja indulgente, 
porque o hotel est cheio.
- O que  uma vantagem para vocs.
Monsieur Dessin encolheu os ombros, de modo significativo.
- A sala de jantar est cheia de viajantes que falam muito, bebem pouco e 
se queixam bastante.
- So tambm barulhentos demais - disse Sheldon.
Embora a porta estivesse fechada, ele ouvia vozes, risos e gritos 
constantes:
- Garon! Garon!
Dessin serviu o vinho e ofereceu-o a Sheldon, numa bandeja. Ele tomou um 
gole, saboreando-o, e inclinou a cabea.
- Excelente!
-  du meilleur, milorde. Eu no lhe ofereceria outra coisa.
- Faz muito bem. - Havia algo de advertncia em sua voz. Monsieur Dessin 
hesitou.
- Milorde, tenho um pedido para lhe fazer. Houve uma pausa e Sheldon 
ergueu as sobrancelhas.
- Um favor?
- A sala de jantar est cheia e, alm do mais, no  um lugar convenable
para uma dama da alta sociedade. - Olhou para o ingls com ar apreensivo
e continuou: - Poderia ter a gentileza de convidar uma senhora muito 
distinta para jantar aqui, com o senhor? No tenho nenhum lugar onde 
possa acomod-la. Nenhum!
- Tomei este quarto para meu uso particular - respondeu Sheldon Harcourt.
- Sei disso, milorde, mas essa senhora  jovem e bonita. Lev-la para a 
sala de jantar seria exp-la a comentrios desagradveis. O quarto dela 
frio.
Dessin estava apelando para Sheldon, que lhe lanou um olhar penetrante, 
antes de dizer:
- Jovem e bonita? Tem certeza?
- Mais certainement, milorde! Juro que no vai ficar decepcionado. 
Madatne est belle... Trs belle!
Como para dar nfase s suas palavras, Dessin atirou um beijo no ar, num 
gesto expressivo.
- Oh, est certo - concordou Sheldon Harcourt, em tom resignado. - Diga a 
essa bela senhora que me sentirei honrado se jantar comigo. Mas, se for 
feia, com cicatrizes de varola, eu o esganarei, seu malandro!
- Pode confiar em mim, milorde, e agradeo sua gentileza.
Dessin fez uma profunda reverncia e saiu, todo sorridente, deixando 
Sheldon Harcourt com a impresso de que, desde o princpio, o outro sabia 
que conseguiria seu intento.
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Droga! Eu pretendia passar uma noite sossegada, para poder
refletir.
Na realidade, estivera refletindo desde que sara de Paris, sem chegar  
concluso alguma. Enquanto sorvia o vinho, ficou pensando que talvez a 
solido apenas aumentasse sua depresso inevitvel.
Dali a minutos, a porta se abriu e ele virou a cabea, curioso. Ficou 
profundamente surpreso. No era uma mulher que ali estava, e, sim, um 
negrinho, carregando nos braos uma almofada quase do tamanho dele.
Vestia um palet comprido, de brocado, que lhe chegava at os tornozelos 
e tinha botes dourados. Usava um turbante de cor viva, com um broche de 
pedrarias na frente, prendendo uma pena.
O negrinho adiantou-se at a lareira, inclinou-se cortesmente para 
Sheldon Harcourt e colocou a almofada na poltrona diante da lareira.
Inclinou-se novamente e saiu, sem dizer palavra.
Sheldon observou-o com expresso divertida. Sabia perfeitamente que as 
senhoras aristocratas, na Frana, assim como na Inglaterra, achavam 
chique ter um rapazinho negro a seu servio. Eles carregavam os leques, 
as luvas e as bolsas das patroas. Levavam tambm seus recados e deviam 
estar  disposio delas dia e noite.
Muitas vezes tinha visto cabecinhas de negros caindo sobre o peito, num 
cochilo, e meninos que no passavam de criancinhas serem acordados com a 
batida seca de um leque ou o pontap de um sapato pontudo.
Notou que aquele pretinho no era to jovem como muitos que conhecia. 
Para ser exato, depois que a porta se fechou, Sheldon achou que parecia 
mais um ano do que um menino.
Tomou outro gole de vinho e viu a porta abrir-se novamente.
Desta vez, apareceu uma criada idosa, carregando uma cobertag com borda 
de arminho. A touca cercada de renda era muito brancal sobre o rosto 
enrugado.
Mas ela no entrou. Ficou segurando a porta, e dali a um momento sua 
patroa apareceu.
Sheldon disse a si mesmo que a dama fez uma entrada to dramtica, que 
ele quase esperou ouvir o som de trombetas!
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Levantou-se lentamente, achando que a moa justificava os adjetivos 
usados por monsieur Dessin. Era muito bonita, com cabelos pretos puxados 
para trs, olhos grandes, pestanas escuras e uma pele que parecia muito 
branca contra o vestido negro.
Via-se claramente que estava de luto, mas um luto elegante como s as 
francesas conseguem usar e que nada tinham de deprimente.
Seu vestido era de seda preta, aliviado com um pouco de branco, e o 
decote, to acentuado, que pouco faltava para ser indecente.
Lentamente, com elegncia e dignidade, essa viso de beleza se adiantou 
para Sheldon Harcourt, fazendo uma reverncia muito graciosa.
Ele se inclinou, e seu gesto tambm foi um modelo de cortesia.
- Monsieur, o proprietrio me informou de sua gentileza, convidando-me a 
vir para sua sala particular. Fico-lhe profundamente grata.
Seu ingls era excelente, mas com um ligeiro sotaque, que lhe dava uma 
graa especial. Quando fitou Sheldon, seus olhos eram to convidativos 
como o sorriso dos lbios macios.
- Estou encantado por poder servi-la, madame. Ou deveria dizer 
tnademoiselle?
- Je suis la comtesse de la Tour - disse ela. Depois, soltou um gritinho e
voltou-se, zangada, para a criada que ainda estava  porta aberta.
- Fermez Ia porte, Francine! Se no a fechar, podero me ouvir e acabarei
como meu pobre marido: na guilhotina. Por que no cuida de mim?
- Pardonnez-moi, madame!
- D-me minha manta e depois pode ir. Mas lembre-se: no deixe que
percebam quem sou.
- C'est entendu, madame.
A empregada entrou, colocou a manta de arminho no brao da poltrona, fez
uma reverncia para a patroa, outra para Sheldon Harcourt e saiu
lentamente.
- Os criados so to estpidos, no percebem nada... - disse a condessa, 
fazendo um gesto com ambas as mos.
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Sheldon notou que, no mesmo dedo da aliana de ouro, ela usava um anel de
prola e brilhante.
Sua nica outra jia era um colar de prolas, muito bonito.
- Precisa falar-me a seu respeito, comtesse. No quer sentar-se? Ela se 
sentou na poltrona que ele indicou, abrindo a saia em toda
a sua amplido e fitando-o com ar indagador, como se refletisse se devia 
ou no confiar nele.
- Sou madame de la Tour - disse, dali a um momento. Nunca, nunca me chame
de comtesse, enquanto estivermos em solo francs. - Deu um pequeno gemido
e juntou as mos. - Meu marido adorado... Vi quando subiu os degraus para 
a guilhotina! No cometeu nenhum crime, a no ser o de ter nascido nobre!
- Lamento que tenha sofrido dessa forma. Posso lhe oferecer um copo de 
vinho?
- Obrigada, mas prefiro esperar at que o jantar seja servido.
- Estava me falando sobre seu marido.
- Morvamos fora de Paris, em Nogent-sur-Seine. A revoluo parecia 
distante e no nos preocupava. - A condessa cobriu os olhos com as mos. 
- Pelo menos, no at... h um ms... e ento...
Pareceu emocionante demais para continuar.
- Compreendo - disse Sheldon. - Tambm perdi muitos amigos.
- Veio de Paris, monsieur?
- Sim. Achava que as coisas estavam um pouco melhores, at que aquele 
idiota, Barre, exigiu a vida do rei, como uma "medida de segurana 
pblica" indispensvel.
- L pauvre ri! Tenho imensa pena da rainha e de sua famlia!
- Fez uma pausa e perguntou: - E, pelo fato de o rei ter sido executado, 
o senhor tem que voltar para a Inglaterra?
- Vi-me obrigado a sair de Paris. Estou convencido, assim como todos os 
ingleses que se encontram na Frana, de que a Inglaterra vai declarar 
guerra a este pas.
- Mas, para o senhor,  voltar para a ptria - observou a condessa, em 
voz baixa. - Para mim, ... entrar no desconhecido.
- Tem amigos na Inglaterra?
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- Deve haver alguns emigres que eu conhea, mas no sei quem so, nem 
onde encontr-los.
Sheldon pareceu atnito.
- Est realmente viajando sozinha? A condessa sorriu.
- Tenho Francine, que cuida de mim desde que eu era criana. E Bobo  meu 
criado particular e muito mais forte do que parece.
- Achei que no  to moo como a princpio me pareceu observou Sheldon.
-  muito observador, monsieur! Acertou. Para dizer a verdade, Bobo tem 
vinte e cinco anos e  muito forte. Se algum me atacasse, tenho certeza 
de que ele o mataria!
- Garanto que isso no lhe acontecer na Inglaterra.
-  por isso que estou to ansiosa para ir para l, para me sentir 
segura, para saber que o seu lindo pas me acolher com um calor que no 
existe mais na Frana.
Sheldon esperou que ela no ficasse decepcionada. Sabia que Londres 
estava cheia de refugiados e que a atitude dos ingleses, a princpio 
hospitaleira, estava mudando para uma velada exasperao.
Sabia tambm, por ingleses que chegavam a Paris, que os emigres que 
tinham fugido ao primeiro sinal do que estava para acontecer em 1789 se 
chamavam a si mesmos Ls Purs, ou "os puros".
Consideravam traidores os que haviam chegado mais tarde, por terem 
demorado tanto a fugir.
Sheldon achou que, pelo menos, a condessa no parecia pobre. Para uma 
mulher bonita e com dinheiro, Londres poderia ser muito agradvel, mesmo
que a princpio ela no tivesse amigos.
Seguido por duas criadas e um garom que trazia o vinho, monsieur Dessin 
entrou na saleta com os primeiros pratos de uma refeio elaborada e bem-
feita, com uma excelente variedade.
O Hotel d'Angleterre era famoso por sua boa mesa, e Sheldon descobriu que 
no havia exagero nas notcias.
A spcialit de Ia maison, feita com caranguejos frescos, era uma 
delcia; o champanhe, magnfico.
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Quando a porta se abria, ouvia-se o barulho que vinha da sala de estar, o 
que fazia com que Sheldon desse graas a Deus por ter conseguido uma 
saleta particular.
Enquanto jantavam, perceberam que o vento e a tempestade l fora 
aumentavam. De vez em quando, uma rajada sbita entrava pela chamin.
- Parece que vamos ficar presos aqui durante algum tempo observou ele.
- Espero que no. - Depois, a condessa acrescentou, vivamente: - Pode 
parecer indelicado, monsieur, quando foi to amvel comigo, mas espero 
que compreenda que estou apreensiva quanto  minha segurana.
- Compreendo, mas acredito que est segura, aqui em Calais. A revoluo 
ainda est restrita s principais cidades da Frana, e os piores crimes 
foram cometidos em Paris.
- Chegou at Nogent-sur-Seine - lembrou ela, trmula. Tinham terminado o 
jantar e agora s havia o caf diante deles e
um copo de um excelente conhaque ao lado de Sheldon. A condessa estendeu 
a mo para ele.
- Vai ser bom para mim, na Inglaterra, monsieur?  to distinto e to 
importante que sei que, com sua ajuda e proteo, me sentirei segura.
Nos olhos azuis dele surgiu um brilho divertido.
Durante o jantar, percebera que a condessa procurava flertar.
Tomou parte no duelo de palavras e de olhares, com uma percia que vinha 
de uma longa experincia no convvio com mulheres bonitas.
Esperava que a condessa apelasse para ele, como ingls, mas no pensou 
que acontecesse to depressa.
Pegou a mo que ela lhe estendia e beijou-a, como a condessa esperava.
- Precisa me contar mais alguma coisa de sua vida - disse Sheldon.
Os dedos da condessa apertaram os dele e depois escaparam, como uma 
borboleta que buscasse o sol.
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- O que deseja saber? Meu marido era um homem rico, mas no sei quanto 
poderei salvar de seu patrimnio.
- A senhora tem algum dinheiro na Inglaterra?
- No tenho certeza. Quando chegar a Londres, preciso procurar advogados 
e fazer certas... investigaes. Nesse meio tempo, tenho o suficiente 
para viver com conforto. - Por um momento, seus dedos tocaram o colar de 
prolas, e o anel de brilhante cintilou. Se me indicar o hotel onde devo 
ficar em Londres, monsieur, poderei procurar com calma um lugar para 
morar, num bairro elegante,  claro. - Deu um suspirozinho. - Se eu 
pudesse ficar com algum, at encontrar alguma coisa que me conviesse...
Sheldon teve um sorriso enviesado.
- Lamento no poder convid-la para a manso de minha famlia, mas farei 
o possvel para encontrar um lugar onde possa descansar, condessa, at 
encontrar uma casa adequada.
- No sabe o que  estar s no mundo, monsieur - disse ela, com um soluo 
entrecortado. - No ter ningum para cuidar de mim... ningum que me 
ame...
- J disse que lamento.
-  muita bondade sua. Talvez, se eu fosse um pouco mais velha, mais 
experiente, fosse mais fcil. Mas meu marido fazia tudo para mim... tudo!
- E agora est sozinha.  muito triste.
- Tenho que ser corajosa... tanto quanto ele. quando subiu para a 
guilhotina e disse as palavras que ainda ressoam em meus ouvidos: "Que 
Deus receba a minha alma e que o demnio guarde a de vocs!
Como se, esta lembrana fosse por demais dolorosa, a condessa escondeu o 
rosto nas mos.
- Um pouco de conhaque? - sugeriu Sheldon. servindo a bebida num copo. - 
A condessa sacudiu a cabea, e ele continuou: Tenho certeza de que foi 
muito corajosa, at agora. Mas seria um erro entregar os pontos, por mais 
trgicas que sejam as suas lembranas. Coragem!
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- De coragem  que vou precisar no... futuro. - Descobriu o rosto e 
continuou: - Os ingleses sempre foram muito corajosos.  uma fora que
tm no prprio sangue!
-  muito lisonjeira, madame!
- Est... surpreso?
A expresso coquete voltou ao olhar dela. Pegou o copo e levantou-o.
-  um gentilhomme muito bom e muito bonito!
Sheldon Harcourt inclinou-se, mas no correspondeu ao brinde. Em vez 
disto, reclinou-se na poltrona, muito  vontade, observando a 
companheira.
Era realmente muito bonita, de feies delicadas e aristocrticas e pele 
perfeita. O nariz reto e os dentes perfeitos, brilhando entre os lbios 
vermelhos, tudo contribua para uma beleza acentuada pela graa.
Como se percebesse que estava sendo observada atentamente, a condessa 
corou de leve.
- Parece que o senhor est me analisando.
- Oh, perdo! Seu ingls  fabuloso, sabia? Onde aprendeu a falar to 
fluentemente?
-  muito simples: minha me era inglesa!
- Isso explica tudo, mas, na realidade, condessa, parece muito francesa.
- Puxei de meu pai e morei na Frana a vida inteira. Mas sempre desejei 
conhecer o pas que minha me sempre considerou como seu e do qual falava 
com emoo.
- Ento, tem parentes na Inglaterra?
A condessa abriu as mos, num gesto largo.
- Talvez tenha... No sei. - Abaixou os olhos e continuou: Minha me 
fugiu com meu pai. Foi uma msalliance, para o filho de uma famlia 
aristocrtica. Todos esperavam que seu casamento fosse arranjado, como 
so todos na Frana, mas ele era rebelde! - Sorriu e seus olhos 
brilharam. - Ento, monsieur, compreende por que estou aqui?
- Compreendo e... posso dizer que fico contente com isso?
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- Eu quis dizer por que estou aqui neste mundo, no nesta sala 
particular, neste exato momento - explicou a condessa.
- Sei perfeitamente o que quis dizer, mas falo de um ponto de vista 
puramente egosta. Estou contente porque um mar tempestuoso e at mesmo 
os horrores da revoluo nos reuniram!
- O senhor  muito amvel e... lisonjeiro.
As pestanas da condessa eram escuras contra a pele branca. Ela se 
levantou e se aproximou da lareira.
Enquanto ali ficou, aquecendo as mos, as chamas deram a seus cabelos um 
brilho azulado e seus olhos cintilaram como estrelas.
Sheldon aproximou-se.
- Preciso ir para a cama - disse a condessa. - Foi um dia longo e estou 
cansada.
- Esperemos que o vento passe e que amanh possamos fazer a travessia do 
canal.
- Se isso acontecer, irei v-lo de novo?
- Espero que sim.
- Quero tornar a v-lo. No compreende que desejo muito tornar a v-lo? 
Ergueu os olhos para Sheldon, e ele franziu a testa.
Depois, sem nada dizer, tomou-a nos braos e puxou-a contra o peito.
Ela no resistiu. Pelo contrrio, ergueu ligeiramente a cabea,
percebendo que ele ia beij-la.
Os lbios da condessa eram muito macios, e Sheldon sentiu que ela estava
trmula.
Seus beijos se tornaram mais insistentes, mais exigentes, e seus braos a
apertaram com tanta fora que ela mal podia respirar.
Depois, quando as mos da condessa tentaram afast-lo, ele ergueu a 
cabea e disse, em tom completamente diferente:
- Agora, suponhamos que me conte a verdade.
- A verdade? - Os olhos dela estavam mais escuros e bem abertos, quando 
fitou Sheldon.
- Sim, a verdade! - repetiu ele.
- Que quer dizer... com isso?
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- Voc no  a condessa de la Tour!
- Como  que... soube?
- Conheci a condessa e ela , na realidade, uma mulher feia e de meia-
idade.
- Isso  uma pena!
- Sim, . E h mais uma coisa que desejo que me explique,
- Explicar o qu?
- Por que est usando uma aliana? Tenho certeza de que no  casada. No 
h dvida de que nunca foi beijada por um homem.
A moa fez um movimento rpido e libertou-se dos braos dele. - Tiens! O 
que fiz de errado?
- Nada de errado - corrigiu Sheldon. - Digamos que  um tanto 
inexperiente...
- Qualquer pessoa poderia notar isso? - Talvez no.
A moa bateu o p.
- Ento, por que voc me desmascarou?  uma infelicidade, no ? que, de
todos os homens que poderiam estar hoje nesta saleta, eu encontrasse logo
voc! - Fez uma pausa e acrescentou, pensativa:
- E tambm conheceu a condessa de la Tour antes de ela ter sido
guilhotinada.
Sheldon sorriu, porque a moa parecia exasperada como uma gatinha pronta 
a se virar contra o mundo.
-  melhor nos sentarmos, para que me conte tudo.
Teve a impresso de que ela hesitou. Depois, como que resolvida a confiar 
nele, sentou-se na poltrona e puxou a manta sobre os joelhos.
- O que... deseja saber? - perguntou, ainda hesitante.
- A verdade! Estou curioso.
- Se eu lhe contar a verdade, monsieur, promete me ajudar?
- Vai depender do que voc quer, ou do que espera de mim.
- Voc  ingls,  nobre e  muito rico... no ?
Sheldon Harcourt riu e serviu-se de mais um conhaque, sentando-se na 
cadeira em frente a dela.
- Estamos comeando de uma maneira errada. Voc acertou apenas num ponto:
sou ingls. Mas no sou nobre. Meu "ttulo" existe apenas na imaginao 
de monsieur Dessin. E no possuo um nquel!
- elas!  verdade?
- Absolutamente verdade. Vou voltar para a Inglaterra quase como um 
emigre, como voc, meu bem, de modo que no pode contar muito comigo para
ajud-la neste ponto, se for o caso.
-  muito pior!
- ConteTne tudo. Fui franco com voc e espero que seja igualmente franca 
comigo.
-  verdade que no sou casada, mas achei que no seria convenable e que 
no faria muita vista eu chegar a Londres tendo s Francine e Bobo como 
acompanhantes. Mas uma viva no precisa de dama de companhia.
- Conheceu a famlia de la Tours?
- Mame e eu morvamos na aldeia deles, mas no falavam conosco. No nos
achavam dignos de sua ateno.
- Por qu?
A moa hesitou ligeiramente, como se escolhesse as palavras. Depois, 
decidida a nada ocultar, respondeu:
- Meu pai era o duc de Valence. Amava minha me e ela o amava. Muito 
antes de se conhecerem, ele j era casado, com uma mulher sem graa, sem 
imaginao, que preferia a igreja e a companhia dos padres  do marido.
- Ento, voc  filha natural.
Fitando-a, viu que o fato de descender de um nobre justificava sua 
beleza, os traos aristocrticos e a graa de seus movimentos.
- Sim. O duc morreu em Paris... em agosto. - No havia dvida quanto 
nota de tristeza da voz dela.
- Lembro-me de que ele foi um dos mil e duzentos aristocratas e bispos 
que perderam a vida no massacre - observou Sheldon.
- Mame no pde viver sem ele - contou a moa. - Comeou a definhar  
e... morreu. - Teve um pequeno soluo. - Foi enterrada duas semanas 
antes... do Natal.
- Ento, voc est sozinha.
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Ela procurou se controlar, antes de responder.
- Completamente s, a no ser por Francine e Bobo.
Agora Sheldon compreendia por que no haveria amigos esperando-a em 
Londres, ningum para abrir as portas  filha de um duque frances.
- O que pretende fazer? - perguntou ele.
- Pretendo casar.
- Casar?
- Claro! Quero ser respeitvel.
Havia na voz dela uma determinao que fez com que Sheldon disfarasse um 
sorriso.
- Seria mais fcil arranjar um protetor.
Ela se endireitou na cadeira e seus olhos fuzilaram.
- Acha que  o que desejo? Pensa que j no sofri bastante por ter sido 
menosprezada, desfeitada, porque meu pai no pde dar  minha me uma 
aliana? - Respirou fundo e continuou: - Quero ser rica. Quero ter 
posio. Pretendo ser respeitvel, e ningum impedir que isso acontea.
Isto foi dito com virulncia, e Sheldon atirou a cabea para trs e riu.
- Voc  sensacional! Se existe algum que possa conseguir o que pretende 
na vida, esse algum  voc!
- E... vai me ajudar?
- Como posso?
- Pode me dizer aonde devo ir. Pode me apresentar aos homens certos. 
Disse que no tem fortuna, mas influncia e boas relaes so mais 
importantes do que dinheiro. - Fez uma pausa. - Vamos fazer um trato... 
oui? Voc me ajuda e eu o ajudo. Casarei com um homem rico... e 
dividiremos o dinheiro dele!
Sheldon tornou a rir.
- Voc  incorrigvel! Nunca me fizeram uma proposta to fantstica!
- Por que  assim to fantstica?
- Acredita que eu concordaria em aceitar seu dinheiro? Os olhos da moa 
se apertaram por um momento.
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- Por que no? Voc diz que no  nobre, mas  um cavalheiro. Meu pai o 
teria aprovado. No pode dizer que no  aceito na sociedade e em muitas 
casas importantes, na Inglaterra.
Sheldon no respondeu. Observava-a, e a moa teve a impresso de que
refletia sobre o que ela havia dito. Em voz suave, ela continuou:
- Chegaremos a Londres juntos. Voc dir a todos que est tomando conta 
de mim porque meu marido, que morreu na guilhotina, era seu amigo. - 
Sorriu. - Uma apresentao levar a outra, e, quando eu encontrar um 
homem bastante rico, casarei com ele! Reclinou-se na cadeira e continuou: 
-  muito simples. Qual o problema?
- Qual  o seu nome? - perguntou Sheldon. - Seu nome verdadeiro.
- Cerissa. O sobrenome a que tenho direito  o de minha me, Waring, mas 
nunca o usamos.
- Ento, que sobrenome vocs usavam?
- Valence! Por que no? Eu no tinha vergonha de meu pai.
-  verdade? - perguntou Sheldon.
- Claro que  verdade! Uma pessoa no tem culpa quando seus pais no
podem ser unidos pelo matrimnio, na igreja! - Cerrisa suspirou. - Eles
estavam unidos de todos os outros modos. Adoravam-se. Eram duas pessoas 
destinadas a viver juntas, desde o princpio do mundo. Talvez estejam 
juntos, agora... quem sabe?
Havia algo de espiritual nos olhos escuros, e ela pareceu muito moa.
Depois, como Sheldon nada dissesse, fitou-o ansiosamente e continuou:
- Eu lhe contei a verdade. Vai me ajudar?
- Talvez. Estou pensando.
- Ento, deixe que pensemos juntos. - Atirou para um lado a manta de 
arminho e ajoelhou-se ao lado dele, suplicando: - Ajudeme, por favor.
Assim que entrei nesta sala, senti que voc era o tipo de ingls que eu 
queria encontrar e algum em quem podia confiar.
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- Acha mesmo que pode confiar num aventureiro que no possui um nquel? 
Porque  isto que sou. Nos ltimos cinco anos, tenho vivido de 
expedientes.
- Ela ficou em silncio por alguns momentos.
- Foi obrigado a sair da Inglaterra?
- Sim, tive que vir para o estrangeiro. - Havia na voz dele uma nota que 
dizia que ela no devia insistir naquele assunto.
- E agora que vai voltar... Posso ir junto? - perguntou Cerissa.
- Francamente, no sei em que poderei ajud-la. Alm do mais, uma viva 
bonita se arranjaria muito melhor sem uma companhia masculina que poderia 
provocar inmeros comentrios.
- Ento, talvez seja melhor eu aparecer como solteira. Essa histria de 
viva foi ideia de Francine.
Sheldon Harcourt olhou para o rostinho erguido para ele.
- Escute aqui: ningum, assim que a conhecesse, acreditaria que foi 
casada.
- Por que no? Achei que estava representando muito bem.
- No tanto assim. No a ponto de enganar uma pessoa com experincia na 
sociedade.
Ela fez um amuo gracioso e disse:
- Ento, serei uma jeune filie. No vai ser difcil ser o que realmente 
sou.
- Que idade tem?
- Pouco mais de dezoito.
-  muito moa.
- Sinto-me velha - disse Cerissa, com um suspiro. - Aconteceu tanta
coisa! No tenho sido feliz. Preciso aprender a tomar conta de mim mesma.
Parecia uma criana afirmando que no tem medo do escuro.
- A grande arte do disfarce  ser natural - declarou Sheldon.
-  uma pessoa ser ela mesma, na medida do possvel. Deixe-me pensar... - 
Ficou por alguns momentos olhando para o fogo, antes de perguntar: - 
Algum da famlia Valence se tornou emigre?
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- Ningum. Meu pai dizia que s os covardes fogem e que ele era francs. 
Se tivesse que morrer, morreria em solo francs! - Sua voz quebrou-se num 
soluo. - E foi o que... aconteceu!
- E a duquesa? - perguntou Sheldon.
- Foi guilhotinada com seu bispo confessor. Acho que foi justo, j que 
ela o amava tanto!
Sheldon tocou de leve a face de Cerissa.
- Voc  uma coisinha muito sanguinria!
- J'ai deteste cette femme... Eu a detestava! - respondeu Cerissa,
ferozmente. - Ela dizia coisas cruis e indelicadas sobre mame. Tentou, 
de todos os modos, tornar nossa vida insuportvel.
- com certeza, tinha cime.
- A culpa foi dela, se perdeu o marido! No fazia o mnimo esforo para 
atra-lo. Certa vez, ouvi papai dizer: "Mon Dieu! Como a minha lua-de-mel 
foi aborrecida! "
- Mesmo assim, voc quer casar.
- Claro que quero! Quero que me respeitem, que me admirem; desejo entrar 
em todas as casas importantes, que sempre tiveram suas portas fechadas 
para mim. - Respirou fundo. - Pode imaginar o que era ver papai, todo 
elegante, sair para ir a um jantar no Palcio das Tulherias, ou a um 
baile em Versalhes, e saber que mame no podia acompanh-lo? - Houve uma 
pausa e a moa continuou: Ele nos falava das pessoas que encontrava, das 
conversas que tinha com o rei e com a rainha. - Cerissa suspirou. - Eu 
ouvia, sabendo que sempre ficaria do lado de fora das casas de gente 
importante... que nunca entraria l.
Segurou as mos de Sheldon.
- Ajude-me e, por mais que voc ria, juro que o ajudarei! Diz que  um 
aventureiro... Pois bem, tambm sou uma aventureira. Por que no podemos 
trabalhar juntos?
- Roubando os ricos? - perguntou ele, em tom de zombaria.
- S precisamos de um homem rico... s um... que me pea em casamento. - 
Cerissa se ps de p. - Olhe para mim! Diga que no existe um nico homem 
na Inglaterra, um, ao menos, que seja bastante tolo para me entregar seu 
corao!
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 luz das chamas da lareira, ela estava realmente muito bela.
- No seria difcil encontrar um - respondeu Sheldon, como que obrigado a 
reconhecer isto.
- Encontre-o, ento! Encontve-o, e estaremos feitos... voc e eu!
- No  assim to fcil.
- Por que no?
- Porque, com a sua aparncia, menina, todo mundo vai ficar desconfiado, 
se eu for visto constantemente em sua companhia.
- Tiens! Isso eu posso compreender! Sei perfeitamente o que diziam de 
mame, mas... - Fez uma pausa e de repente seus olhos se iluminaram. - 
Por que, ento, voc no pode passar por meu tutor? Suponhamos que papai, 
quando subiu para a guilhotina, me entregou aos seus cuidados, dizendo: 
"Esta  a filha que amo. Proteja-a, faa com que viva em segurana. Leve-
a para a Inglaterra, onde ela no correr perigo". - Cerissa falou em tom 
dramtico. Depois perguntou: - Se papai lhe dissesse isto, que teria voc 
respondido?
- Se eu fosse bastante tolo para ficar perto da guilhotina, procurando 
encrenca, creio que teria achado difcil recusar o ltimo pedido de um 
homem que ia morrer.
- Est vendo? - disse Cerissa, triunfante. -  esta a nossa histria. 
Voc  meu tutor... - Interrompeu-se e inclinou a cabea de lado. - 
Parece quase bastante idoso para ser meu tutor.
- Tenho trinta e um anos - disse Sheldom. - Acho que ningum pediria meu 
atestado de nascimento, se eu acrescentasse mais uns anos  minha idade.
- Muito bem. Ter trinta e sete! Ser assim suficientemente velho!
- Muito velho! - disse ele, sarcstico. - Principalmente para uma pessoa 
jovem como voc!
- Eu terei... dezessete! Afinal, era a idade que eu tinha, h um
ano. No mudei muito, desde ento. Meu penteado  severo demais. Francine
achou que era o que convinha a uma viva.
Ao dizer isto, tirou os anis do dedo e entregou a Sheldon o de prola e 
brilhante.
- Mais tarde, voc poder ver quanto consegue por isto. com o tempo, o 
colar de prolas de mame tambm ter que ser vendido.
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- Voc  muito confiante. Suponhamos que eu fique com este anel e voc 
nunca mais me veja.
- Confio em voc; meu instinto nunca falha, quando se trata de julgar as 
pessoas. Papai sempre dizia que eu tinha vocao para feiticeira!
- Acho que est abusando de sua feitiaria. Nunca vi um plano mais
maluco, mais tolo, fora do teatro.
- Uma atriz!  o que vou ser! E voc ser meu produtor, como se fosse uma
pea de teatro. La Comtesse Cerissa de Valence! Tem som romntico, nest-
ce ps?
- Voc no me disse quantos filhos o duque tinha.
- Trs. Eram cinco, mas dois morreram. A filha era feia como a me. 
Jamais gostei dela!
- Que aconteceu com ela e com os dois filhos?
- Estavam na mesma priso de meu pai. Acredita-se que foram executados ao 
mesmo tempo. Seja como for, ningum voltou para o castelo, antes de ser 
saqueado. Disto tenho certeza!
- A propriedade do duque ficava perto da casa de sua me?
- Mais ou menos a quatro quilmetros e meio. Foi por isto que ele nos 
levou para Nogent-sur-Seine. Preferia morar no campo e passava a maior 
parte do tempo conosco. Quando ia a Paris, amos com ele. Deu a minha me 
um apartamento no muito longe de sua magnfica manso. - Cerissa teve 
uma exclamao de repulsa.
- Um apartamentozinho... uma casinha de campo... tudo clandestino!  esta 
a histria de minha vida: ter vergonha e ser insignificante! - Foi para o 
outro lado da sala, inquieta, e depois voltou para perto da lareira. -  
por isso que pretendo ser respeitvel, ir  igreja de carruagem, ser 
conduzida para o genuflexrio da frente e receber em minha casa as 
pessoas certas.
- Vai ach-las muito montonas!
- Nada do que for certo e correto ser montono para mim. Conheci bem
demais o outro lado da vida! Vi minha me se contrair quando a 
insultavam. Ouvi, at mesmo na voz dos fornecedores, o tom de desprezo, 
pela chre amie... uma mulher que, aos olhos da maioria das pessoas, nada
tinha que a recomendasse... exceto um
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homem para sustent-la. - Havia na voz de Cerissa uma nota quase 
venenosa. Depois, de novo se atirou de joelhos diante de Sheldon.
- Ajude-me! Oh, por favor, ajude-me!  a nica oportunidade que terei de 
encontrar segurana e ser a pessoa que desejo ser.
Estava muito bonita, e a expresso splice do olhar era irresistvel. 
Mas, estranhamente, os olhos azuis de Sheldon tinham um brilho duro e 
nada havia de compreensivo em seu tom de voz, ao dizer:
- Se eu a ajudar, promete que me obedecer?
- Quer dizer que... concorda em me apresentar...  sociedade na 
Inglaterra?
- Acho que talvez esteja cometendo o maior erro de minha vida. H um 
ditado que sempre segui e que diz: "Quem viaja s, viaja mais depressa".
- Mesmo assim... vai viajar comigo?
- Creio que  o que terei que fazer. Mas s se voc jurar, por tudo o que 
lhe  mais sagrado, que, se eu encontrar um marido certo, casar com ele 
e estar preparada para sofrer as consequncias, sejam quais forem.
Cerissa deu um profundo suspiro de alvio.
- furo! Oh, moMsieir, 'e vous remerde! Agradeo-lhe do fundo do corao!
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CAPTULO II

- Acho que devemos juntar nosso dinheiro e ver quanto teremos que gastar
- sugeriu Sheldon.
Estavam sentados na saleta particular do hotel.
O vento, l fora, ainda soprava forte, mas o mar no estava to revolto, 
e Sheldon achava que no dia seguinte o navio poderia zarpar.
De manh, quando foi at o cais, sugeriu a Cerissa que o acompanhasse. L 
chegando, viram os marinheiros olhando para as ondas com ar taciturno e 
desanimado.
Quando o vento no soprava forte, a viagem de Dover a Calais geralmente 
durava trs horas; mas, quando o mar estava agitado, s vezes levava 
cinco ou seis.
No princpio do sculo, os navios que faziam a travessia eram pouco 
confortveis e muitas vezes no muito seguros, mas agora as condies 
eram muito melhores. Havia mesmo duas cabines particulares no Queen Anne, 
o navio onde Sheldon tinha reservado as pssagens.
Alugou uma das cabinas, convencendo o capito de sua importncia e da
importncia da condessa, e depois voltou para o hotel.
Nada havia de interessante na cidade de Calais, que consistia de algumas 
ruas estreitas que iam dar num mercado central. As casas eram baixas e 
pareciam pobres e tristes. Sheldon calculou que no devia haver mais do 
que cinco ou seis mil habitantes, ali.
Em compensao, havia qualquer coisa de agradvel na aparncia e na 
atitude do povo. Apesar das histrias de agresso e de maneiras rudes 
vistas no resto da Frana, Sheldon Harcourt achou que o povo dali era 
muito servial.
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A chuva parou; um sol plido procurava romper as nuvens cinzentas.
Sheldon notou que havia muitas mulheres bonitas entre as esposas dos 
pescadores, com suas saias vermelhas e tamancos pesados. Muitas tinham 
cabelos claros e olhos azuis.
Tinham-lhe contado que, quando Eduardo in havia capturado Calais, 
expulsara os habitantes franceses, substituindo-os por cidados ingleses. 
No era, portanto, de admirar que os viajantes ingleses que chegavam ao 
porto francs se sentissem bem-vindos e fossem bem tratados, nas ruas e 
nas lojas, por pessoas de descendncia inglesa.
Sheldon sabia que os ingleses, principalmente os aristocratas, quando iam 
ao estrangeiro pela primeira vez, acreditavam que os franceses eram
debochados e ateus, alm de muito tagarelas.
Entre seus contemporneos que frequentavam os clubes ingleses, eram
poucos os que no afirmavam categoricamente que os franceses pertenciam a
uma raa gananciosa, no muito limpa e que, qviando no estavam agindo"
como atores. agiam como macacos".
No tinham dado ouvidos a Sheldon quando ele sara da Inglaterra, e no o 
ouviriam agora, quando voltasse.
Mas, depois de ter passado cinco anos na Frana, ele achava que o povo, 
em geral, estava longe de ser composto de salafrrios, como muitos 
supunham, e que, na realidade, tinha uma viva compreenso e era educado e 
cordial.
Lembrou agora, com um sorriso, que durante uma discusso, em Paris, com 
um visitante ingls um tanto desagradvel, havia dito que, em sua 
opinio, os homens franceses eram "exemplos de boa educao", e as 
mulheres, fascinantes e s vezes irresistveis".
Sheldon agora achava que sua opinio certamente se confirmava com a 
presena de Cerissa.
Sentada diante da lareira, estava muito bonita. Alm disso, era muito 
inteligente. A moa lhe contou que tivera uma boa educao.
- Papai detestava mulheres estpidas.
- Voc frequentou uma escola ou um convento? Ela sacudiu a cabea.
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O lugar onde eu gostaria de ser educada certamente no me
aceitaria. Eu poderia corromper as outras meninas!
Havia em sua voz uma nota amarga que sempre transparecia quando falava de 
suas experincias como filha ilegtima do duque.
Sheldon mudou o rumo da conversa.
Mas, ao fit-la, achou que o ressentimento de Cerissa era compreensvel. 
Apesar de sua mocidade e evidente inocncia, que faziam com que fosse 
impossvel agir com a sofisticao de uma mulher casada e experiente, ela 
possua uma atitude digna, que no podia deixar de ser notada.
Sheldon achou que isto vinha da convivncia constante com um homem 
inteligente e culto como o duque devia ter sido.
Ficou tambm sabendo que a me de Cerissa vinha de uma boa famlia 
inglesa, aceita nos crculos da corte.
Foi realmente no Palcio de Buckingham que Madeiaine Waring ficou 
conhecendo o duque de Valence.
Ele pediu para ser apresentado  moa mais bonita do baile e, depois de
danar com ela, percebeu que estava apaixonado.
O coronel sir Archibald Waring tinha trazido a esposa e a filha a 
Londres, para a estao.
No dia seguinte ao do baile, o duque foi visitar lady Waring, sendo 
recebido com certa frieza.
A me de Madeiaine sabia muito bem qual o motivo da visita e no ficou 
nada impressionada com as atenes de um aristocrata francs que tinha 
mulher e filhos em seu pas.
Mas foi impossvel ao duque e a Madeiaine se conservarem afastados um do
outro.
Bilhetinhos eram trocados, secretamente, com a inevitvel cumplicidade de
uma criada. Encontravam-se clandestinamente e, quando ele voltou para a
Frana, Madeiaine o acompanhou!
Olhando para Cerissa, no era difcil compreender a paixo do duque, se a 
me tivesse sido to bonita como a filha.
Mas Sheldon achou extraordinrio como uma mulher podia mudar de aparncia 
de um dia para o outro. A sofisticada elegncia de uma viva jovem, que 
Cerissa fingira ser quando entrara na saleta, havia
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desaparecido. Em seu lugar, surgiu uma mocinha que olhava para a vida com 
olhos espantados, os cabelos escuros caindo em cachos em volta do rosto.
O fichu estava cruzado modestamente sobre os seios, deixando que se visse 
apenas o incio do colo branco.
Seguindo o curso de seus pensamentos, Sheldon disse:
- S h uma coisa boa em tudo isto: no vai precisar comprar muitos 
vestidos.
-  verdade. Tenho o guarda-roupa de mame. Como gostava de se apresentar 
de maneira simples e pouco vistosa, quase todos os seus vestidos eram 
pretos. - Sorriu e acrescentou: - Para dizer a verdade, como era clara, 
esta cor lhe ia muito bem.
Sheldon nada disse e Cerissa olhou para sua saia preta.
- Gosto muito de cores alegres, mas tenho que parecer triste e de luto. 
Francine poder colocar enfeites brancos nos vestidos de mame, para que 
no paream tristes demais, e, mais tarde, usarei branco, com uma faixa 
preta.
- A aparncia  muito importante. Vamos precisar de dinheiro. E, se 
embarcarmos juntos nessa louca aventura,  melhor sabermos em que p 
estamos. - Sem parecer dar a isso grande importncia, continuou: - No que 
me diz respeito, minha fortuna consta de sessenta libras.
-  bastante, junto com o que tenho - disse Cerissa. Sheldon apertou os 
lbios, e a moa percebeu que ele no gostava
da ideia de usar o dinheiro dela. Segurou-lhe o brao, dizendo 
suavemente:
- Sua primeira qualidade, cher monsieur,  ser um cavalheiro. O fato de 
conhecer a Inglaterra e de ter amigos na sociedade  de um valor 
inestimvel.
- Parece confiar muito em mim, embora nada saiba de minha vida passada, 
presente ou futura.
- Sei o que importa - respondeu Cerissa, olhando-o por sob as pestanas 
escuras.
- Vamos aos fatos positivos - disse ele, bruscamente.
- Muito bem. Papai deu a mame quinhentos mil francos, quando
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comeou a revoluo. Depositou o dinheiro num banco em Paris, em nome de
Madelaine Waring, e disse: "Isto  para voc e Cerissa, caso me acontea 
alguma coisa".
- Um banco em Paris!
- Quando fomos para o campo, mame guardou a maior parte de suas jias 
nesse mesmo banco. Sempre falvamos em ir buscar algumas, mas tnhamos 
medo.
-  compreensvel.
- Quando resolvi ir para a Inglaterra, pensei em escrever para o banco, 
pedindo que transferisse o dinheiro para Londres. Depois as coisas 
pioraram e fiquei imaginando se uma carta colocada no correio em Nogent-
sur-Seine chegaria a Paris.
- E agora, se for declarada a guerra, o dinheiro certamente ficar 
congelado - disse Sheldon.
- Quer dizer que... jamais o receberei?
- No enquanto durar a guerra.
- Era disto que eu tinha medo. Se tivesse tido coragem de ir a Paris... 
Mas pensei no que havia acontecido a papai...
Estremeceu e em seus olhos surgiu uma expresso de medo.
- Talvez sirva como um peclio para a sua velhice - disse Sheldon, 
otimista. - Que mais voc possui?
- Quando estava vivo, papai dava a mame grandes somas de dinheiro, todos 
os meses, para pagar as despesas da casa, os empregados e nossas roupas. 
Tnhamos outros empregados, alm de Francine e de Bobo.
- E o dinheiro, naturalmente, cessou, no ltimo dia do ms de agosto.
Cerissa concordou com um gesto da cabea.
- Mame despediu os outros empregados; mesmo assim, tive que pagar o 
mdico e, naturalmente... o enterro.
- Quanto sobrou? - perguntou Sheldon, com naturalidade.
- Tenho mais ou menos sete mil e quinhentos francos.
- Isso significa trezentas libras, se conseguirmos um bom cmbio no outro
lado do canal, do que duvido - observou Sheldon.
- Tenho tambm o colar de prolas de mame, que usei ontem
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 noite, seu anel e o broche de brilhantes. - Deu um suspirozinho.
Ela possua jias to bonitas! Se ao menos tivssemos tido o bom
senso de guard-las conosco, em vez de deix-las no banco em Paris!
-  fcil falar, depois que as coisas acontecem. Alm do mais, o que no
tem remdio, remediado est.
- Tem razo. A moblia tambm era muito valiosa. Papai queria que mame 
tivesse um ambiente digno de sua beleza.
- O que voc fez com a moblia?
- Francine e eu empacotamos o que pudemos e pedimos ao mdico que tratou 
de papai, e que era nosso amigo, que mandasse tudo para um depsito.
- E quanto  casa?
- Fechamos tudo e samos  noite, para que no nos vissem partir. - 
Cerissa fez um gesto de desamparo com as mos. Talvez tenha sido 
incendiada e nada mais reste dela, como aconteceu com o castelo 
incendiado pela ral! Trouxe comigo alguns objes d'art. Caixinhas de
ouro com pedrarias, miniaturas que papai deu a mame, dizendo que achava
que os rostos se pareciam com o dela!
- Ficou em silncio durante alguns minutos, relembrando, e depois 
continuou: - H algumas que ela prezava mais, porque foram presentes de 
Natal e de aniversrio; muitas de ouro com pedras preciosas...
- Voc no deve vend-las, a no ser quando for absolutamente necessrio 
- disse Sheldon, com firmeza.
Intuitivamente, sabia que era tudo o que tinha sobrado a Cerissa do 
passado, tudo o que lhe lembrava a me.
Ao mesmo tempo, embora o que ela possua parecesse bastante, Sheldon 
sabia com que facilidade o dinheiro desaparece. As trezentas libras no 
durariam para sempre.
- Tenho uma proposta a lhe fazer - disse, dali a um momento. Cerissa 
ergueu os olhos para ele, esperando.
- Acho que, quando chegarmos  Inglaterra, no devemos ir diretamente 
para Londres. Em primeiro lugar, tenho razes pessoais para no querer 
ser visto l; em segundo, seria melhor para nossos planos, e mais barato, 
irmos para Bath.
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- Bath? Ouvi mame falar desse lugar.
-  uma estao de guas muito elegante, no oeste da Inglaterra. Nesta 
poca do ano, numerosos aristocratas vo l para tratar da sade e 
aproveitar o bom clima.
Cerissa ouvia atentamente. Ele continuou:
- Bath  realmente uma cidade elegante e atraente. Como  muito menor do 
que Londres, ser mais fcil voc conhecer a nobreza, sem formalidades. 
Alm do mais, sempre acreditei que  melhor ser "o primeiro aqui do que o 
segundo em Roma". - Sorriu de lado e acrescentou: - No  uma comparao 
muito feliz, tratando-se de uma pessoa deslumbrante como voc!
- Acha que sou deslumbrante? - perguntou, inclinando a cabea de lado.
- Garanto que vai ser a estrela dos sales de festa e dos bailes 
frequentados pela jeunesse dore e por todas as pessoas importantes.
- Ento, vamos para Bath - concordou, excitada.
- Vou escrever uma carta reservando quartos, que ser posta no correio 
assim que chegarmos a Dover. Ser uma viagem longa e cansativa, atravs
dos campos, principalmente nesta poca do ano. Mas, depois que chegarmos 
l, tenho certeza de que o esforo ter valido a pena.
- Estou pronta a fazer qualquer coisa que sugerir.
- Minha sugesto  que deixe que eu troque seu dinheiro, aqui na Frana, 
por libras. - Cerissa ficou surpresa e ele continuou: - Tenho a impresso 
de que o dono deste hotel, monsieur Dessin, muitas vezes se viu forado a 
aceitar dinheiro ingls, de viajantes que chegam e que partem.
-  claro.
- com a ameaa de guerra, ele vai ficar preocupado, sem saber como se 
livrar desse dinheiro ingls.
- Como voc  inteligente! Vou subir e pegar o meu dinheiro. Sei onde
Francine o escondeu.
Levantou-se imediatamente, aflita para agir.
Sheldon percebia que, no ntimo, ela temia que acontecesse alguma coisa 
que impedisse ou atrasasse a ida deles para a Inglaterra.
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Dali a pouco, a moa voltou com uma poro de notas, entregou-as e disse:
- Trouxe tudo o que possuo.
- Como eu j disse, voc  muito confiante.
- Estou confiando a voc uma coisa muito mais importante do que dinheiro: 
eu mesma!
- Sei que  uma grande responsabilidade.
Falou em tom zombeteiro, mas, quando olhou para ela, havia em seu rosto 
uma expresso diferente. Depois, saiu bruscamente da sala, fechando a 
porta.
Cerissa sentou-se no tapete, diante da lareira.
Estava grata quele homem. Sabia que cuidaria dela e velaria por sua 
segurana. Nunca se enganava nessas coisas. Mame e papai teriam gostado 
dele, pensou.  trs gentil.
Ficou olhando para as chamas, como se ali visse algumas imagens.
As ondas ainda tinham uma crista branca, mas o mar j no estava to 
revolto.
O sol afastara as nuvens; o vento, embora ainda soprasse, no podia ser 
qualificado de vendaval.
No havia dvida de que Cerissa e seu grupo estavam causando sensao 
entre os passageiros que esperavam a partida do Queen Anne.
Ningum jamais havia pensado que uma pessoa que viajasse por mar pudesse 
ser to elegante.
Em vez de xales pesados, capas, casacos e echarpes, Cerissa usava um 
manto de veludo preto com forro, barra e gola de chinchila.
A gola de pele cinza, macia, emoldurava o rosto de um modo encantador. Os 
lbios vermelhos e sorridentes e os olhos brilhantes faziam com que a 
maante espera pela hora do embarque parecesse uma aventura, mais do que 
um aborrecimento.
Os olhos dos presentes iam de Cerissa para Sheldon Harcourt.
Por contraste, ele parecia muito grande e muito alto. Seu palet era 
elegante, suas botas brilhavam como espelhos.
Como se essas duas pessoas excepcionalmente atraentes no bastassem, os 
criados que as acompanhavam e que cuidavam da bagagem tambm causavam 
sensao. Francine, de cabelos brancos, usando
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uma touca branca com um babado  volta, tinha um ar severo. E Bobo era 
uma piada! Usando uma libr de cor viva, cheia de botes dourados, dava 
aos carregadores ordens num tom autoritrio que fazia com que fosse 
imediatamente obedecido.
Sheldon Harcourt notou, com ar divertido, que os botes do palet de Bobo 
tinham o braso do duque de Valence; viu tambm que, na maioria das 
malas, estava gravado o mesmo braso.
No fez perguntas, mas Cerissa percebeu seu interesse e disse, em tom 
baixo, que s foi ouvido por ele:
- Bobo juntou-se  turba que saqueou o castelo de meu pai.
- Isto explica os botes da libr - observou Sheldon.
- Tenho direito a isso - declarou, ferozmente.
Ele no a contradisse. Viu, divertido, que ela erguia o queixo com 
altivez, parecendo crescer alguns centmetros, ao pensar na posio que 
achava que merecia ter.
Se Cerissa estava disposta a casar e ser respeitvel, Sheldon descobriu 
que Francine estava decidida a que nada impedisse que isto acontecesse.
No dia em que conheceu a moa, percebeu que a criada o olhava com raiva e 
desconfiana, dirigindo-se a ele com uma brusquido que chegava a ser 
rude.
- Que aconteceu com sua criada? - perguntou a Cerissa, quando Francine, 
entrando na saleta para trazer alguma coisa necessria  sua patroa, saiu 
dali de um modo decididamente agressivo.
Ela sorriu.
- Francine acha que voc no pode ser to importante como parece, j que 
est viajando sem um criado particular. Acha tambm estranho que um homem 
bonito como voc continue solteiro, o que no aconteceria se tivesse 
dinheiro para sustentar uma esposa!
Sheldon atirou a cabea para trs e riu.
- Francine  muito esperta!
- Expliquei-lhe que voc vai me ajudar a adquirir respeitabilidade, mas 
ela no acredita. Sabe o quanto tenho sofrido e tem medo de que me 
apaixone! com mame, foi diferente. Ela amava meu pai
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e se sentia completamente feliz quando estavam juntos. Quanto a mim... eu 
era a que... sobrava!
- Fora de casa e at mesmo dentro! - brincou Sheldon.
- Voc ri, mas  verdade.
- No estou rindo por maldade. Compreendo exatamente o que sente, e  por 
isto que, no que me for possvel, eu a ajudarei a colher o fruto mais 
maduro do alto da rvore da melhor sociedade.
- Acho aconselhvel voc convencer Francine de que  esta sua inteno;
caso contrrio, ela se servir de Bobo para machuc-lo!
Sheldon pareceu surpreso.
- Bobo pode ser perigoso - explicou Cerissa. - Quando estavam saqueando o 
castelo, quase matou um homem que tentou tirar dele uma coisa que tinha 
pertencido a meu pai e que ele achava que eu ia querer.
- Ele precisa ter cuidado. Se agir desse jeito na Inglaterra, acabar na 
priso.
- Foi o que eu lhe disse. Mas, no que diz respeito a Francine,  melhor 
que ela compreenda que voc  meu amigo e que no pretende ser... meu 
amante.
- Ento  disso que eles desconfiam! No  de admirar. Cerissa inclinou a 
cabea de lado.
- Gostaria de ser... meu amante?
Sheldon deu um murro na mesa, que fez com que o tinteiro estremecesse.
-  o tipo de pergunta que no devia fazer! Voc  minha pupila, sou seu 
tutor e muito mais velho do que voc. Tem que me tratar com respeito!
- Mesmo quando estamos a ss?
- Sempre! O tempo todo! Para representar bem um papel, a pessoa precisa 
se integrar nele. Precisa ser o que representa. Uma escorregadela... uma 
escorregadela inconsciente poderia pr tudo a perder. - Olhou para ela e 
continuou, severo: - Daqui por diante, vamos representar nossos papis 
vinte e quatro horas por dia. Nunca relaxaremos, nunca deixaremos de 
representar, nem mesmo por um minuto.
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Cerissa sorriu e disse, coquete:
C'est entendu. Antes de comearmos, posso dizer... merci,
mon brave? E acrescentar que o acho muito atraente e muito bonito?
- Obrigado. E posso dizer que seus cabelos esto em desalinho e que tem 
uma mancha na ponta do nariz?
- Ma foi!
Cerissa deu um pulo e correu para se olhar no espelho pendurado na 
parede.
Mirou-se durante algum tempo, virando-se depois para Sheldon.
- No  verdade! Voc disse isso s para me provocar!
- Apenas para mostrar a diferena em nossas posies. Agora, precisamos 
resolver como  que voc vai se dirigir a mim.
- J pensei nisso. Mon gardien  muito formal. Vou cham-lo de 
monseigneur.  muito mais atraente!
- Esse tratamento  usado para a realeza, para os bispos ou para pessoas 
importantes como seu pai.
- No que me diz respeito, voc  to importante quanto... ele
- respondeu Cerissa, suavemente.
- Muito bem. Que seja, ento, monseigneur. E no se esquea! Falou
bruscamente, porque achou que Cerissa estava rindo dele e isto o
aborrecia.
Teve oportunidade de conversar com Francine, naquela noite, quando ela 
trouxe para a saleta particular a manta e a almofada de Cerissa.
Sheldon percebeu, pela atitude da empregada, pelos lbios compridos, que 
desconfiava dele.
- Preciso falar com voc, Francine.
Falou em francs, embora soubesse que ela entendia ingls.
A mulher empertigou-se e ficou olhando para ele, em atitude correta, com 
as mos cruzadas na frente.
Era severa e implacvel, exatamente o tipo de dama de companhia de que 
Cerissa precisava, na opinio de Sheldon.
- Quando chegarmos  Inglaterra, vou levar sua patroa para Bath. Ela no
conhece ningum em nosso pas e espero poder apresent-la
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 boa sociedade, onde poder encontrar um marido que cuide dela
e a proteja, no futuro.
Francine no respondeu, mas em seu olhar surgiu um brilho que indicou que
estava interessada.
Ele continuou:
- Voc sabe melhor do que ningum que mademoiselle tem pouco dinheiro, 
mas  bonita e, em Bath, conhecer vrios solteiros, bons partidos. Tenho 
certeza de que no ser difcil arranjar um bom marido.
- Quer que ela case, monsieur? Jura?
- No a estou enganando, Francine. Mademoiselle me disse que voc no 
acreditou nela. Pois bem, pode acreditar em mim! No tenho ms intenes 
em relao  sua patroa. Quero apenas ser amigo de Cerissa.
Francine observou-o, como que procurando a verdade. Depois, num tom que 
era quase um soluo, disse:
- Eu poderia morrer por mademoiselle Cerissa, monsieur! Criei-a desde que
nasceu.  como se fosse minha filha.
- Ento devemos agir juntos para o bem dela. vou precisar de sua ajuda e 
da de Bobo. Est claro?
Francine sabia exatamente o que ele queria dizer. Fez uma reverncia, 
mais respeitosa do que qualquer outra que tinha feito a Sheldon, at 
ento.
- Ns ajudaremos, monsieur. L bon Dieu o mandou em nosso auxlio.
Havia na voz dela uma nota de sinceridade que impediu Sheldon de sorrir, 
quando a viu sair da sala.
Enquanto falava com a empregada, achou que tudo aquilo parecia uma pea 
de teatro e intimamente riu de si mesmo por tomar parte nela. Ao mesmo 
tempo, a situao o intrigava.
Quando subiu para o Queen Anne, percebeu que estava curioso pelo que iria
acontecer e em disposio de esprito muito diferente da que sentira ao
chegar a Calais.
Depois de instalar Cerissa na cabine, com numerosas malas, deixou-a com 
Francine e foi andar pelo tombadilho.
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Era bom marinheiro e o mar nunca o incomodava, por mais agitado que 
estivesse. Percebeu que muitos passageiros j estavam indispostos, antes 
de sair da baa, e viu-se sozinho no tombadilho.
Estava debruado na amurada, olhando para a costa da Frana que se 
afastava, quando Bobo apareceu a seu lado.
- Pardon, monsieur, mas h um cavalheiro sentado no outro lado do navio 
que est completamente embriagado.
- E que tem isso?
- Ele tem uma carteira cheia de dinheiro. Se eu no a pegar, um outro 
certamente a pegar.
- No seja idiota! Se voc for apanhado, ser levado diante de um 
magistrado e enforcado ou deportado.
Achou que Bobo ficou sobressaltado, embora fosse difcil perceber emoo 
no rosto negro.
- Na Inglaterra, as autoridades so muito severas com os ladres
- disse Sheldon. - Por causa de mademoiselle, no deve se envolver em 
nada ilegal, que possa chamar a ateno sobre sua pessoa. Compreende?
Falou severamente, e Bobo deu um suspiro.
- Tem razo, monsieur. Mas seria fcil, muito fcil.
- Eu lhe direi, quando estivermos desesperados a ponto de precisarmos nos 
rebaixar a roubar. At l, nada de se arriscar.  uma ordem!
- Compreendo, monsieur. Estou s suas ordens.
Bobo inclinou a cabea de um modo engraado e se afastou, com certa 
dignidade.
Sheldon tornou a olhar para o mar.
Compreendia que seus problemas estavam apenas comeando e, de certa 
forma, eram um desafio ao qual no podia resistir.
Fazendo seu plano de campanha, Sheldon Harcourt no saiu de Dover no dia 
em que l chegaram.
Estavam todos cansados e encontraram acomodaes no King's Head, que era 
da mesma classe do Hotel d'Angleterre, embora a comida fosse 
indubitavelmente inferior.
- No posso comer isto - disse Cerissa, na primeira noite, ao
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jantar, torcendo o nariz diante do carneiro duro e das verduras 
ensopadas.
- Vamos partir amanh - respondeu Sheldon,  guisa de consolo. - Assim 
que eu conseguir uma carruagem de viagem.
- Uma carruagem?
- No apenas detesto andar sacolejado pelas estradas numa diligncia, 
como no seria um meio de transporte elegante para chegarmos a Bath. - A 
moa ouviu-o atentamente. - Uma coisa que temos de evitar  que voc 
parea pobre como os outros emigres que vivem atualmente na Inglaterra.
Se as pessoas pensarem que podero ser responsveis por suas dvidas, 
logo se afastaro de voc!
- Temos que parecer ricos? - perguntou Cerissa, com voz ligeiramente 
trmula.
- Temos que fingir que somos, o que  diferente. Os ricos raramente so 
generosos, a no ser com eles mesmos.
-  verdade. Meu pai muitas vezes me falou da mesquinhez dos cortesos de 
Versalhes. Gastavam uma fortuna com roupas, fivelas de brilhantes e jias 
para as esposas, mas muitas vezes faziam com que os empregados esperassem 
por seus ordenados durante meses e at anos.
- Tambm no viam os pobres do lado de fora de seus portes, nem a fome 
que havia em Paris - disse Sheldon, seco. - Compravam jias, quando o 
povo clamava por po!
-  difcil acreditar que nada tenham feito, exceto se divertir comentou
Cerissa. Depois, mudando de tom: - Vamos ser ricos e alegres! Vamos
enganar os verdadeiros ricos e fazer com que paream tolos!
- Precisamos ter cuidado - advertiu Sheldon.
- Oui, monseigneur. Terei muito cuidado e, quando eu der risada, no vo 
perceber que estou rindo deles!
- Precisamos ter cuidado para que no riam de ns!
- Oh, voc parece Francine, sempre vendo o lado negro das coisas! "Tenha 
cuidado!" "No faa isso!" "No faa aquilo!" "No se arrisque!"  o que 
vocs dois dizem. Recuso-me a ouvir!
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Estendeu os braos num gesto de desnimo. Estava to bonita, que foi
difcil compreender por que Sheldon disse, secamente:
- Comporte-se. Lembre-se de que est de luto recente. Est desolada com a 
morte de seus pais e por ter sido obrigada a fugir de seu pas.
- Vou poder... sorrir?
- No muito.
- Acho que vou voltar para a Frana.  prefervel ser guilhotinada a 
viver em tal escurido, em semelhante tristeza. No poder sorrir! Quer 
que eu chore?
- Isso, no. Detesto mulheres choronas.
- Mas se eu no rir, vou chorar! Voc pode escolher. Talvez queira que 
chore no seu ombro, trs pathtique! Ento, poder me confortar!
- Pode guardar essas cenas para o homem com quem casar. Agora, v dormir! 
Tenho muito que planejar, e voc me distrai.
- Era isso o que papai sempre dizia a mame, quando estava preparando um 
discurso. Depois a beijava e dizia que no se importava que ela o
distrasse. - Houve uma pausa. Depois, Cerissa perguntou: - Gostaria 
de... me beijar de novo?
- V dormir! - gritou Sheldon. - E me chame de monseigneur. Ser preciso 
repetir isto? Boa noite!
Estendeu a mo e Cerissa fez uma profunda reverncia.
- Bon soir, monseigneur - respondeu, em voz mansa. Depois, endireitando-
se, beijou a mo de Sheldon.
Partiram no dia seguinte, numa carruagem que Sheldon tinha comprado por 
bom preo, em Dover. Era um tanto antiquada, mas tinha boas molas e 
pertencera a um nobre.
Na parte de fora estava pintado um braso e as rodas eram de um amarelo 
vivo.
- Que bonito! - exclamou Cerissa, quando a viu.
Os dois cavalos eram os melhores que Sheldon tinha encontrado, mas ele 
estava preocupado com as despesas.
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Depois que a bagagem foi colocada dentro, mal havia lugar para Francine e 
Bobo ao lado do cocheiro. Mesmo assim, os ps de Bobo ficaram em cima de 
uma das malas de Cerissa, e Francine levava no colo um estojo de jias, 
com um braso na tampa.
Como havia sol, Cerissa usava um chapu amarrado embaixo do queixo com 
fitas de cetim. Mas o casaco enfeitado de chinchila estava sobre seus 
ombros, porque soprava um ventinho frio, que ficou mais forte  medida 
que chegava a tarde.
- Vamos viajar por etapas - disse Sheldon. - No adianta chegarmos a Bath 
exaustos.
- O que quer dizer  que precisamos estar de esprito alerta observou 
Cerissa.
- Mais ou menos isso. Estou tentando lembrar se conheo algum que tenha 
casa em Bath ou nos arredores. Mas faz muito tempo que estive l. Para 
dizer a verdade, creio que, na ocasio, tinha dezessete anos.
- Para que foi l?
- Minha me estava doente e os mdicos a aconselharam a fazer uma estao 
de guas. O frio de Londres e de Hertfordshire, onde morvamos, provocava 
nela uma tosse que durava meses.
- Sua me era bonita?
- Muito! Morreu um ano depois de nossa ida a Bath.
- Lamento. Deve ter sentido a falta dela.
- Senti. E meu pai morreu dois anos depois.
- Ento, ficou rfo quase na mesma idade em que perdi meus pais!
- Temos isso em comum.
- H muitas outras coisas... tambm - disse Cerissa.
- Que espcie de coisas? Ela refletiu por um momento.
- Creio que temos os mesmos gostos, embora no tenhamos tido muito tempo
para falar sobre isto. Papai dizia que o gosto  muito importante; que,
quando uma pessoa tem bom gosto e a outra tem mau gosto,  quase certo
que acabem mal, se irritam mutuamente.
- Creio que  verdade, embora nunca tenha pensado no assunto.
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- No quero que fique irritado por minha causa, monseigneur. - Ento
comporte-se como quero que se comporte. 
-  o que estou tentando fazer.
No percebe que estou tentando?  muito decepcionante ver que no aprecia
meus esforos. Sheldon sorriu.
- Aprecio, sim, Cerissa. Mas no percebe que tudo vai depender da
impresso que causarmos, quando chegarmos a Bath? - Refletiu por um
momento e continuou: - Podemos causar sensao. Somos espetaculares;
principalmente com Francine e Bobo a nosso servio. Mas, como voc disse,
precisamos evitar o mau gosto e ter cuidado para que nosso relacionamento
no desperte suspeitas.
- Serei muito jovem e muito ingnua. Quando voc me apresentar a um
cavalheiro, ficarei de olhos arregalados e vou pedir que me explique por
que a terra  redonda! - Deu uma risadinha. Tenho certeza de que os
homens preferem as mulheres burras. Isto lhes d uma sensao de 
superioridade.
- Esse  o tipo de comentrio que no devia fazer - advertiu Sheldon.
- Mas estou dizendo s a voc.
- Pode pensar assim, mas no exprima seu pensamento em voz alta.
Passaram a noite numa estalagem agradvel, onde eram os nicos hspedes.
O proprietrio acolheu-os efusivamente e ofereceu-lhes os melhores 
quartos, depois de ter cometido o engano de pensar que eram marido e 
mulher.
A lareira estava acesa na saleta particular. Quanto ao jantar, embora 
fosse sem graa e tipicamente ingls, era, pelo menos na opinio de 
Cerissa, aceitvel.
Estava cansada e muito menos tagarela do que de costume.
Terminado o jantar, quando se sentou diante da lareira com um copo de 
conhaque na mo, Sheldon percebeu que tambm ele estava com sono.
Dali a pouco, quase cochilava. Sacudiu a cabea e, ao olhar para
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a cadeira ao lado, notou que Cerissa dormia profundamente. Estava
encolhida na poltrona, a cabea apoiada numa almofada macia que Bobo
tinha trazido antes do jantar, o vestido coberto pela manta debruada de
arminho.
Assim adormecida, parecia ainda mais jovem e certamente mais vulnervel 
do que quando falava e ria e seus olhos brilhavam.
Sheldon ficou olhando-a durante longo tempo.
Parecia-lhe incrvel que estivesse envolvido naquela situao dramtica 
com uma jovem que conhecera apenas dois dias antes e a quem agora dava 
toda a sua ateno.
Confiante, Cerissa lhe entregara seu dinheiro, mas Sheldon, por escrpulo 
de conscincia, pagara suas despesas pessoais com o prprio dinheiro.
Assim que se sentasse a uma mesa de jogo, esperava poder aumentar sua 
fortuna, como havia feito com grande sucesso durante todo o tempo em que 
vivera na Frana.
Tinha a impresso de que seria mais fcil ganhar em Bath do que em Paris.
Olhando para Cerissa, pensou: vou fazer todo o possvel para no gastar 
comigo um nquel do dinheiro dela. E no tenho inteno de ficar por 
perto, depois que lhe arranjar um bom casamento.
Ficou imaginando que espcie de homem casaria com uma migre que no 
podia fornecer provas de seus antecedentes e que era apresentada  
sociedade por um tutor de um tipo um tanto duvidoso.
Depois achou que Cerissa era bastante bonita para afastar as crticas e 
as precaues.
A vida de Sheldon Harcourt sempre tinha sido cheia de mulheres bonitas.
Embora fosse exigente na escolha, sabia, com certo cinismo, que, se no 
tivesse sorte no jogo, sempre haveria braos femininos abertos para 
consol-lo e dedos generosos, dispostos a encher seus bolsos.
Apesar de tudo, Sheldon reconhecia que, entre todas as mulheres que amara 
e que o tinham amado, nenhuma era to bonita nem to fascinante como 
Cerissa.
Achou que nenhum homem que ela escolhesse seria capaz de re42
cusar o convite daqueles olhos grandes e escuros, nem a maciez dos lbios
perfeitos.
Lembrou-se de que, na primeira noite, percebera o quanto aqueles lbios 
eram inocentes e inexperientes.
Cerissa o convidou a beij-la e ele o fez, acreditando que, se ela no 
era a condessa de l a Tour, era pelo menos uma mulher experiente no que
dizia respeito aos homens.
Depois, ao sentir os lbios to indefesos sob os seus, notou o quanto era
inexperiente e que as coisas que havia dito ao jantar eram mentiras.
Mais ainda: o corpinho esguio que ele segurava nos braos era mais o de
uma mocinha do que o de uma mulher.
Um homem menos sofisticado poderia ter-se iludido, mas no Sheldon
Harcourt!
Observando Cerissa ali adormecida, desejou, com um fervor que o
surpreendeu, que ela encontrasse a felicidade.
De muitos modos, era ainda uma criana, e o mundo podia ser um lugar
duro, cruel, assustador para as crianas que no tm quem cuide delas.
Levantou-se, estendeu a mo para acordar Cerissa e mudou de ideia. Ela
estava imersa num pas de sonhos e seria uma crueldade despert-la.
Em vez disso, inclinou-se e pegou-a nos braos.
Ela se debateu por um instante e encostou o rosto no ombro dele.
Quando a carregou para cima, pela escada de carvalho, ele sentiu uma
fragrncia suave e fresca que fez com que se lembrasse das flores
primaveris.
Francine esperava por ela.
O fogo ardia na lareira e as velas davam ao teto baixo um tom dourado.
Quando Sheldon entrou, carregando a moa, a criada se levantou.
- Est dormindo. Cuidado para no acord-la - recomendou ele.
Delicadamente, colocou Cerissa na cama.
Depois, enquanto Francine cuidava do conforto da patroa adormecida, ele
saiu do quarto, fechando silenciosamente a porta.
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CAPTULO III

Os dias de viagem foram aborrecidos, porque s vezes pareciam
interminveis.
Ao mesmo tempo, sempre havia variedade, um novo interesse, no apenas 
para Cerissa, para quem tudo era novidade, como tambm para Sheldon.
Ele notou grandes mudanas ocorridas nos cinco anos em que estivera 
ausente. As estradas, por exemplo, estavam muito melhores, no havendo 
mais a lama onde muitas vezes as carruagens atolavam.
A primeira parte da viagem foi pela estrada de Dover. Quando viraram para 
o oeste, Sheldon se interessou principalmente pelas carruagens que 
transportavam as malas postais.
Em 1784, quatro anos antes de sair da Inglaterra, Sheldon se encontrou 
vrias vezes com John Palmer, membro do Parlamento, por Bath. Fazia 
muitos anos que Palmer estava descontente com o funcionamento do correio, 
o mesmo acontecendo com outras pessoas. Mas ningum sabia que 
providncias tomar.
A entrega de cartas e de pacotes para lugares distantes era confiada a 
carteiros que, sentindo-se seguros como funcionrios pblicos, no se 
julgavam na obrigao de se apressar. Seguiam lentamente atrs das 
diligncias, paravam durante bastante tempo em estalagens. Corria mesmo o 
boato de que estavam mancomunados com os salteadores de estrada. Era isto 
o que Palmer dizia em seus discursos.
Alm de poltico, era um homem que se interessava por teatro.
Possua teatros em Bath e em Bristol. Para produzir boas peas, tinha que
se manter em contato tanto com atores quanto com diretores, em Londres.
- Minha carruagem particular  duas vezes mais rpida do que
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os meios de transporte dos carteiros - disse ele a Sheldon. - E, sem
dvida, merece mais confiana.
John sugeriu ao diretor do correio que carruagens como a dele, leves,
compactas e mais rpidas do que as maiores, substitussem os carteiros.
- s vezes, um carteiro leva cinquenta horas para ir de Bristol a
Londres, mas minha carruagem faz o percurso em quinze - disse ele.
Agora Sheldon ficou sabendo que, desde que sara da Inglaterra, uma 
carruagem Palmer levava o correio de Londres para todas as principais 
cidades da Inglaterra.
Uma verdadeira revoluo postal, disse a si mesmo.
Quando o tempo estava bom, ele achava desagradvel ficar fechado dentro 
da carruagem e fazia Francine sentar-se ao lado de Cerissa, enquanto ele 
ia para a boleia, muitas vezes chegando mesmo a bancar o cocheiro.
O cocheiro lhe havia sido recomendado por uma firma de construtores de 
carruagens, em Dover. Sheldon confiou em Chapman assim que o conheceu. 
Pelo seu jeito de dirigir, percebeu que gostava de animais e que era 
competente em seu ofcio.
Os cocheiros, na Inglaterra, formavam uma classe  parte, mas os que 
cuidavam do correio e das diligncias tinham uma nica preocupao: 
chegar no horrio.
Antes de sair da Inglaterra, Sheldon muitas vezes ficara consternado ao 
ver como os cavalos eram tratados.
Para dizer a verdade, costumava citar os espanhis, que diziam: "A 
Inglaterra  o paraso" das mulheres e o inferno dos cavalos!" Na 
realidade, muitos cavalos e carruagens no passavam de mquinas, usados 
at no se aguentarem mais, sendo depois aqueles vendidos aos
carniceiros.
No era tanto a velocidade, e sim o excesso de carga que os matava. O
transporte de mercadorias rendia mais do que o de passageiros.
Os cocheiros, alimentados com bife, batata e cerveja, com lenos
coloridos em volta do pescoo, colete vermelho e amarelo e botas de
jquei, eram um dos mais interessantes espetculos na Inglaterra.
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Mas no era esse o tipo de homem que Sheldon tomaria como empregado.
Chapman era quieto e respeitoso, embora no tivesse medo de manifestar
sua opinio, e Sheldon o apreciou por isto.
O fato de serem ambos timos condutores de animais criou um respeito 
mtuo entre o patro e empregado, fazendo com que a viagem passasse mais 
depressa.
Em compensao, as longas horas de inatividade, quando Sheldon no estava 
dirigindo, lhe deram bastante tempo para pensar em sua situao 
financeira.
Embora a compra da carruagem fosse dispendiosa, um dia numa carruagem de 
aluguel custava mais de quatro libras, com a possibilidade de um aumento, 
caso houvesse grande procura de lugares e falta destes e de cavalos.
Naturalmente, teria sido mais barato viajar pela carruagem da mala 
postal, mas com o desconforto de ser esmagado l dentro, devido ao 
excesso de passageiros, ou de ficar gelado, no teto, onde os lugares eram 
mais baratos. Havia tambm o perigo de cocheiros embriagados ou de o 
veiculo quebrar em algum lugar deserto, na estrada.
Por causa de Cerissa, Sheldon achou importante que chegassem a Bath 
parecendo pessoas de posses e no os aventureiros pobres que realmente 
eram.
Um consolo, na viagem, eram as estalagens confortveis e, em geral, com 
um bom servio.
Tanto os donos quanto os empregados os recebiam com ponche quente, 
cerveja e comida. As camas eram macias; a comida, se no de primeira 
qualidade, pelo menos era passvel.
Chapman conhecia as estradas mais rpidas e melhores, assim como as 
estalagens convenientes e as que deviam ser evitadas.
S uma vez fracassou, no fornecendo o conforto que Sheldon esperava.
Foi um dia feio e chuvoso, que obrigou os cavalos a andarem mais devagar. 
Finalmente, como estava ficando escuro e havia neblina, Chapman disse a 
Sheldon que seria perigoso continuarem a viajar.
- Vejo uma estalagem l adiante, senhor. Vamos parar?
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- Acho mesmo que no seja confortvel. Podemos ter um acidente, se
continuarmos viajando no escuro.
- Foi o que pensei - respondeu o cocheiro, respeitosamente. Pararam na 
hospedaria, que se chamava Pig and Whistle e era
antiga, pitoresca, com teto de madeira e lareiras grandes.
Mas a mulher do dono estava para dar  luz, e o marido, agitado demais 
para dar muita ateno aos hspedes.
Foi a que Sheldon descobriu como seus empregados eram eficientes; 
Chapman, Francine e Bobo tomaram conta da estalagem.
Francine cozinhava, Bobo servia a mesa, Chapman acendia as lareiras, 
enchia vasilhas com gua quente e ia  adega buscar vinho.
- Se Francine me deixasse, eu cozinharia para voc - disse Cerissa.
- Voc teve um dia cansativo e probo-a de trabalhar.
- Mas... gostaria de cozinhar para voc... monseigneur. Para dizer a
verdade, sou uma boa cozinheira. Papai era muito exigente em matria de
comida. Quando tnhamos criados inexperientes, eu sempre fiscalizava as 
refeies.
- Talvez isso venha a ser til, mas no  provvel - respondeu Sheldon.
- Papai sempre dizia que  importante a gente saber tanto quanto o chef, 
embora o trabalho duro seja feito por ele.
-  verdade, mas no tenho inteno de deixar que voc faa um trabalho 
duro. Lembre-se de que  uma grande dama e deve agir como tal.
Refletiu que s uma grande dama teria agido como Cerissa durante a 
viagem. Nunca se queixava, no ficava emburrada nem de mau humor, e 
sempre tinha alguma observao interessante a fazer a cada parada. 
Mostrava-se encantada com a natureza, com as rvores cobertas de geada 
que tinham uma beleza quase sobrenatural, com as cidadezinhas de 
calamento de pedra e casas com telhado de sap. Os grandes espaos 
abertos, onde o terreno pantanoso se estendia a perder de vista, sombrios 
sob o cu de inverno, a deixavam impressionada.
Estava sempre sorridente e alegre.
Se Sheldon tinha receado encontrar uma moa mimada, dominadora,
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exigente em relao ao conforto, certamente ficou agradavelmente
aliviado ao ver que tal no se dava.
Ao mesmo tempo, todos ficaram contentes quando chegaram a um terreno mais
alto, que subia majestosamente para Bath.
Sheldon se lembrava de que a estrada que ia de Exeter a Lincoln, era um 
dos grandes legados deixados pelos romanos.
Contou a Cerissa que Bath tinha sido uma estao de guas em moda, 
frequentada pelos romanos, porque era o nico lugar na Inglaterra que 
tinha fontes trmicas.
-  fascinante!
Sheldon sabia que a lenda da descoberta da fonte iria diverti-la.
- Um antigo rei britnico tinha um filho chamado Bladard, que era 
leproso. Ele andava por todo o pas, rejeitado por todo mundo, e se 
tornou criador de porcos.
Cerissa ouvia atentamente.
- Assim como Bladard, os porcos tinham uma doena de pele. Certo dia, 
chegaram a um pntano cheio de vapor, perto da margem de um rio.
- J sei o que aconteceu! - interrompeu ela, excitada.
- Os animais entraram na lama quente. Quando finalmente Bladard conseguiu 
fazer com que sassem de l, a doena de pele tinha desaparecido.
- Ento, Bladard tentou a mesma coisa?
- Claro. E ficou curado. Mais tarde, os romanos construram ali uma 
cidade chamada Aquae Sulis, as fontes de Sul, uma deusa celta.
- Posso tomar banho l?
- Creio que sim. Eu s tinha dezessete anos, quando tomei banho l, de 
modo que no me interessei especialmente em saber que arranjos tinham 
sido feitos para as mulheres.
- No se interessava por mulheres, naquela idade? - perguntou, admirada.
- No muito. Os meninos ingleses se desenvolvem mais tarde do que seus 
companheiros do continente.
- Papai me contou que estava profundamente apaixonado aos doze anos!
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- Seu pai era francs!
Cerissa ps a mo no queixo e olhou-o, pensativa.
- Talvez voc seja frio, e as mulheres no consigam despertar Se
ardor.
Sheldon olhou para ela, vivamente, mas percebeu que Cerissa estava
brincando.
- A vida amorosa de seu tutor no lhe diz respeito, menina!
- Pois me interessa muito! Estou curiosa.
- Ento sua curiosidade no vai ser satisfeita - disse ele, lamento.
Cerissa soltou um suspiro exagerado.
- Estou fazendo uma lista dos assuntos sobre os quais no dVa falar. Logo 
enchero um livro e vou public-lo com o nome de Maximes pour ls Jeunes 
Filies, escrito por um homem que no compreende as mulheres.
Sheldon no pde deixar de sorrir. Ficou imaginando quantas mulheres
bonitas, que havia conhecido no passado, concordariam que ele no
conhecia as mulheres.
 O mal era que as compreendia bem demais!
- Est querendo provocar, Cerissa. Se continuar assim, vou me  valer de
minhas prerrogativas de tutor e lhe dar uma boa surra!
Ela fitou-o por sob as pestanas escuras, para ver se falava a srio
Depois disse, suavemente:
- Isso pelo menos mostraria que no sou totalmente indiferente a voc!
- Acha que pareo indiferente? - perguntou, surpreso. Cerissa suspirou
novamente.
- Estou comeando a sentir que sou apenas uma mercadoria que voc vai
vender pelo maior preo que alcanar. Voc me pinta, me enverniza, me d
instrues e conselhos, e s o que lhe interessa saber quanto dinheiro
vou ter!
Era uma acusao injusta e ambos sabiam disto, mas Sheldon ficou zangado
e disse, com firmeza: 
- E, naturalmente, se eu no conseguir isso, posso fazer um preo de 
liquidao. Ou, talvez, dispens-la de uma vez.
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Como resposta, ela lhe atirou uma almofada.
No princpio da tarde, chegaram a uma parte deserta do campo, onde no
havia casas, nem gado, nem pastos. Era um terreno rido, com um grupo de 
rvores mirradas, aqui e acol.
Poderiam estar no norte da Espanha, em vez de em Somerset, pensou 
Sheldon. Era difcil acreditar que ali, naquele pntano feio e isolado, 
estivessem a menos de vinte e quatro quilmetros das frivolidades de 
Bath.
Comeou a chover e ele parou a carruagem, indo para dentro e deixando 
apenas Chapman e Bobo na boleia.
Sabia que dali a alguns quilmetros havia uma descida onde encontrariam a 
nvoa que vinha do canal de Bristol.
Quando entrou na carruagem, Francine quis sair, mas Sheldon a deteve.
- Est comeando a chover e tambem fazendo muito frio. No vale estar
mais quente, mas aqui no h proteo contra o vento.
- Estamos chegando? - perguntou Cerissa.
Enrolada no casaco forrado de pele e coberta por mantas, ela parecia um 
animalzinho hibernando.
Mas, quando sentou ao lado dela, Sheldon achou que a voz da moa ainda 
era alegre e que seus olhos brilhavam.
Francine sentou na frente deles, de costas para os cavalos, que logo 
comearam a trotar a passo vivo.
- No vai demorar. E posso cumpriment-la por ser uma tima viajante, em 
todos os sentidos?
- No fui maante?
- Nunca foi isso. Imprevisvel, sim; s vezes, surpreendente, mas eu 
poderia lhe dar um atestado de que nunca foi maante.
- Papai costumava dizer que sua famlia era muito cacete, quando viajavam 
juntos. Sempre queriam que a carruagem parasse, falavam quando ele queria 
dormir ou dormiam quando ele queria conversar. E madame Ia duchesse 
costumava enjoar.
- Tenho pena de quem sofre disso.
- Papai dizia que era afetao.
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- Acho que seu pai no era muito compreensivo.
- Voc tambm no seria, se eu me queixasse o tempo todo, enjoasse ou 
quisesse parar quando voc preferisse seguir viagem.
- No fez nada disso, e acho que lhe devo agradecer.
- Gostaria que o fizesse...
Sheldon no respondeu. Ficou olhando pela janela, percebendo que estavam 
saindo do pntano deserto e comeando a descer, o que fez com que se 
lembrasse de que havia um rio no fundo do vale.
De repente, o cocheiro freou e a carruagem parou.
- Que aconteceu? - perguntou Sheldon.
Nesse momento, a porta se abriu bruscamente e surgiu um homem mascarado, 
com uma pistola na mo.
Cerissa deu um grito apavorado e tambm Francine se mostrou muito 
assustada.
- Entreguem seus valores! - disse uma voz rude.
No houve tempo para pensar nem para agir, mas Sheldon enfiou a mo no 
bolso do sobretudo, onde havia uma pistola carregada.
Nenhum cavalheiro seria tolo a ponto de viajar sem uma arma, mas, como a 
viagem tinha sido muito tranquila, ele quase se esquecera de que tinha 
uma, at que, instintivamente, seu dedo estava no gatilho.
Atirou. A bala furou seu sobretudo e atingiu o assaltante bem abaixo do 
corao.
Por um momento, o homem pareceu atnito, com o rudo da exploso e com o 
impacto da bala. Abriu a boca de um modo ridculo e, enquanto caa de 
costas, atirou com a pistola que segurava na mo direita.
A bala atingiu o antebrao de Sheldon e o barulho e a fumaa pareceram 
encher o interior da carruagem.
L fora, o outro homem, que apontava sua pistola para Chapman, obrigando-
o a parar, virou-se, ao ouvir o segundo tiro.
Esperava um, mas no dois. Nesse momento, Bobo agiu.
Um punhal longo, estreito e afiado pareceu voar pelos aves, entrando na
garganta do segundo bandido.
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Quando ele caiu, Chapman chicoteou os cavalos e a carruagem partiu.
Foi Francine quem conseguiu fechar a porta, enquanto seguiam a uma grande
velocidade em direo ao vale, comeando depois a subir o morro, do outro
lado.
Cerissa cuidava de Sheldon.
- Est ferido, monseigneur! Est ferido!
Ele no respondeu. Segurava o brao esquerdo, e o sangue que saa do 
ferimento comeava a ensopar seu sobretudo.
- Que vamos fazer? Presisamos estancar o sangue! - disse Cerissa, 
desesperada.
- Est tudo bem - respondeu ele, com dificuldade. - No  nada srio.  
superficial.
-  srio, sim. Precisamos parar, para eu lhe colocar uma atadura.
- Primeiro, temos que nos afastar daqui.
Sheldon percebia que Chapman estava fazendo o possvel para fugir do 
lugar do assalto.
Achava que havia apenas dois homens e censurou-se por no estar mais 
atento e mais preparado, num lugar to deserto. Era de se esperar que 
houvesse ladres, bandidos e salteadores nas vizinhanas de Bath, onde 
roubar viajantes ricos seria mais rendoso do que agir em outras partes do 
pas.
Tarde demais, Sheldon refletiu que devia ter ficado na boleia, por mais 
inclemente que fosse o tempo, at que chegassem a uma regio mais 
habitada.
Salisbury Plain e os pntanos  volta de Bath eram conhecidos como 
perigosos para os viajantes. Sheldon se esquecera disto, por ter estado 
durante muito tempo ausente do pas.
Francine nada mais disse, depois do primeiro grito de pavor, mas agora 
tirava dos bolsos uma poro de lenos e abriu uma das maletas,  procura 
de outros.
Havia ali uma toalha de mo de linho. Pegando uma tesoura, ela comeou a 
cort-la em tiras.
A carruagem seguia velozmente. Cerissa via a mancha vermelha no sobretudo 
de Sheldon aumentar a cada minuto.
52
- Precisamos parar! - gritou, desesperada.
Chapman parou a carruagem e Bobo pulou para fora. Abriu a porta e disse:
- Matei-o, monsieur. Meu punhal atingiu-o na garganta, no ponto vital!
Bobo estava encantado com seu feito. Depois viu o que tinha acontecido l 
dentro e o sorriso desapareceu de seu rosto negro.
- Monsieur est ferido!
- Monsieur levou um tiro de um daqueles bandidos - disse Francine.
Agora que estavam parados, a empregada procurava fazer com que Sheldon 
tirasse o sobretudo, com a ajuda de Cerissa. Bobo lanou um olhar ao 
rosto do ferido e disse:
- Conhaque!  disto que monsieur precisa! Conhaque!
- Claro - concordou Cerissa. - Sou uma tola. Pegue o frasco, Bobo. Est 
num dos bolsos dele.
Acudido pelas duas mulheres e tomando o conhaque que Bobo lhe deu, 
Sheldon percebeu que a nusea que se seguira ao choque comeava a passar.
Depois que Francine aplicou uma compressa e umas ataduras no ferimento, 
ele sorriu e disse a Cerissa que no se preocupasse.
- Voc podia ter morrido! - exclamou a moa, baixinho, com olhos midos.
- Tenho certeza de que ele era um pssimo atirador.  o que acontece com 
a maioria dos salteadores.  tudo blefe! Quando encontram resistncia, 
tratam logo de fugir.
- Pensei que fosse ficar to... segura, na Inglaterra - disse Cerissa, em 
tom pattico. - Na Frana h a guilhotina, mas aqui... como  que eles 
so chamados? Salteadores de estrada?
- Uns so ladres a p; outros, a cavalo - explicou Sheldon.
- Acho que aqueles tinham cavalos, monsieur - informou Bobo.
- Vi dois, ao longe, presos numa rvore.
- Eu devia ter ficado l fora - disse Sheldon. - Talvez seja Melhor fazer 
isto, durante o resto da viagem.
- Absolutamente no! - protestou Cerissa. - D sua pistola a
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Bobo.  um bom atirador. Papai o ensinou a atirar, para que nos pr 
tegesse, a mame e a mim, quando ficssemos sozinhas em casa. Sempre 
tivemos medo de ladres.
Sheldon no estava disposto a discutir. A moa tirou a pistola do bolso 
do sobretudo e entregou-a ao negro.
- Agora, vamos tratar de ir para Bath - disse ela. - Quanto mais depressa
chegarmos, melhor! Depois, vamos procurar um mdico que trate de
monseigneur.
A carruagem partiu, e agora era difcil fazer com que Sheldon se sentisse 
bem acomodado. Estava apoiado em vrias almofadas, mas Cerissa, que o 
observava atentamente, viu que seus lbios se contraam, quando os 
solavancos sacudiam a carruagem.
O frasco de conhaque estava quase vazio, quando finalmente alcanaram o 
calamento de pedra nos arredores de Bath.
Cerissa no se interessou em olhar para fora, para apreciar os prdios 
bonitos que Sheldon descrevera, pensando apenas que precisavam encontrar 
logo um mdico e fazer com que ele fosse para a cama.
Quando a carruagem entrou no ptio do White Hart Hotel, onde iam ficar, 
seu bom senso e o amor ao sensacionalismo lhe disseram que devia tirar 
proveito da situao.
Rapidamente, arranjou os cabelos, ajeitou a capa forrada de peles e 
pintou os lbios.
Um rpido olhar no espelho que sempre trazia na bolsa lhe mostrou que, 
embora plida, estava muito bonita.
A carruagem parou e vrios lacaios de libr desceram correndo os degraus 
da frente, para abrir a porta.
Mas Bobo foi mais esperto do que eles.
- V l, Bobo. Anuncie que cheguei e que houve um acidente disse Cerissa, 
em francs.
Bobo apressou-se a obedecer.
O White Hart era o maior dos vrios hotis de Bath, onde se hospedavam 
nobres e visitantes importantes, e tambm um lugar onde sempre havia 
festas e jantares.
No era muito tarde, mas em Bath costumavam jantar cedo, e os convidados 
de lorde Walburton j estavam reunidos no vasto hall.
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Os cavalheiros se aqueciam diante de uma lareira enorme, enquanto
esperavam pelas senhoras que tinham subido para deixar seus agasalhos,
antes de entrar na sala de jantar particular alugada pelo lorde para
receber seus convidados.
Extremamente elegantes com suas gravatas de laos perfeitos, cales
brancos at os joelhos e meias de seda, a maioria dos homens no tinha os
cabelos empoados, j que a nova moda decretava que os cabelos deviam
permanecer como Deus os tinha feito.
Era uma moda que desagradava aos mais velhos, que comentavam a que ponto 
o mundo tinha chegado, quando um cavalheiro abandonava sua peruca 
empoada, parecendo um plebeu!
Foi esta uma outra maneira de o prncipe de Gales se rebelar contra a 
formalidade da corte de seu pai!
Na realidade, somente no Palcio de Buckingham e no Castelo Windsor as 
senhoras ainda usavam crinolina e eram obrigadas a aparecer de cabeleira 
empoada.
A conversa ao p do fogo girava, naturalmente, em torno da ltima 
novidade, isto , que a Inglaterra tinha declarado guerra  Frana.
- Tenho certeza de que no aguentaremos uma guerra! - comentou um senhor 
idoso. - Mas, por uma questo de dignidade, no podamos agir de outra 
forma.
- Ouvi dizer que nossos navios esto podres e que no temos nmero 
suficiente de marinheiros para competir com os deles observou um outro.
- O comando do Exrcito h anos vem se queixando de que nossas armas so 
antiquadas - disse um general aposentado. - Mas quem dava ouvidos a isto?
- Vo dar, agora - respondeu algum. - No que eu acredite que uma guerra 
com os franceses v durar muito! Eles tiveram algum sucesso no 
continente, mas a maioria dos chefes est desacreditada.
- Ouvi dizer que aquele porco do Tallyrand chegou a Londres. Um sujeito
devasso e revoltante! J disse  minha mulher que no o receberemos em
nossa casa, de modo algum!
- Claro que no! - exclamou um par do reino. - Por que havemos de receber 
esses malditos, diplomatas ou no, cujo nico pensamento  cortar nossos 
pescoos, de um jeito ou de outro?
Estas palavras despertaram a aprovao de vrios cavalheiros, enquanto 
olhavam para a escada por onde desciam suas esposas e filhos.
Elegantemente vestidas com trajes de saia rodada que as tornavam muito 
graciosas, com os cabelos em cachos, de acordo com a moda criada pela 
sra. Fitzherbert, todas estavam cintilantes, tantas eram as jias que 
usavam!
Tinham quase chegado ao p da escada, quando, de repente, pela porta da 
frente do hotel entrou correndo uma figurinha estranha.
O rosto negro, a libr amarela com botes dourados, o chapu alto que ele 
segurava na mo, - assim como as luvas brancas, faziam com que ele 
atrasse irresistivelmente a ateno de todos.
Correu para o balco da recepo, que ficava perto do fim da escada, 
gritando num tom estridente que pde ser ouvido por todos:
- m'mselle la comtesse chegou, mas houve um acidente! O lorde ingls foi 
ferido por salteadores de estrada! Um mdico... Precisamos imediatamente
de um mdico!
- Salteadores?
A palavra foi repetida por numerosas pessoas. O recepcionista, um senhor 
gentil que recebia muito bem todos os hspedes, exclamou, horrorizado:
- Quer dizer que algum foi ferido?
- Oui, oui, monsieur. Ferido gravemente por um salteador! M'mselle la
comtesse est abalada, como era de se esperar. Um mdico! Arranjem um
mdico!
- Vai ser providenciado.
- E o cavalheiro precisa ser carregado para o quarto!
Quando Bobo terminou de falar, Cerissa entrou, muito bonita e ao mesmo 
tempo muito agitada. Sem nem mesmo olhar para os convidados que pareciam 
imobilizados, dirigiu-se ao recepcionista, com sua voz suave e seu 
sotaque encantador.
- Meu criado deve ter lhe falado, monsieur, sobre a... terrvel 
experincia que tivemos na viagem para c.
- Sim, falou, madame. Lamento...
- Sou a comtesse Cerissa de Valence. E meu tutor, o sr. Sheldon
56
Harcourt, foi ferido. Foi muito valente! Muito valente! Deixamos dois 
bandidos mortos na estrada. Esses, pelo menos, no atacaro mais ningum.
Um senhor alto, de cabelos levemente grisalhos, que estava junto  
lareira, aproximou-se.
- Estou muito preocupado, minha senhora, com o que aconteceu. Se lhe 
puder ser til de alguma forma, estou s suas ordens.
Houve um murmrio de aprovao.
Cerissa fitou-o com olhos bem abertos e assustados, os lbios trmulos, 
os dedos finos entrelaados como se isto a ajudasse a se controlar.
- Foi... terrvel, monsieur.
- Garanto que sim.
- Se o senhor pudesse recomendar... um mdico... Relanceou o olhar para a 
porta e viu que Sheldon Harcourt estava
sendo carregado por quatro criados fortes. Parecia muito grande e, mesmo 
de olhos fechados e com o brao enfaixado, conseguia ser elegante e muito 
bonito.
Atrs dele vinha Francine, o tipo de empregada respeitvel que devia 
acompanhar uma jovem como Cerissa.
Os criados subiram a escada, quase como se carregassem um morto; as 
senhoras que desciam afastaram-se para o lado, para deix-los passar. Em 
seus rostos havia uma expresso preocupada, quando olharam para o ferido.
Cerissa torceu as mos.
- Um mdico! Por favor... um mdico! Meu tutor ... a nica pessoa que 
tenho no mundo... para cuidar de mim. Meu pai, o duque de Valence, me 
confiou a ele, quando foi... guilhotinado!
Sua voz quebrou-se num soluo que comoveu todos os homens na sala. O 
cavalheiro que conversava com ela disse, vivamente:
- Meu mdico particular  um timo homem! Vou mandar chamlo
imediatamente. No h melhor cirurgio em Bath.
- Merci, merci, monsieur. POSSO saber seu nome?
- Chamo-me Trevellyan, sir Ralph Trevellyan. - Fico-lhe muito grata, sir
Ralph.
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Cerissa fez uma reverncia. Depois, sem olhar para mais ningum, subiu 
rapidamente a escada, atrs dos criados que carregavam Sheldon, que j 
quase tinham desaparecido de vista.
S quando chegou ao primeiro patamar foi que ouviu o rudo de vozes 
falando ao mesmo tempo.
No quarto grande e confortvel que era um dos melhores do hotel, Sheldon 
tomava outro copo de conhaque e parecia muito diferente da pobre vtima 
que tinha sido carregada para cima.
Apenas Cerissa e Bobo se achavam no quarto; Francine, na saleta, conferia 
as malas.
- No h dvida de que fizemos uma entrada espetacular! - comentou 
Sheldon.
- Talvez at devamos agradecer aos bandidos - disse Cerissa. Depois,
mudou de tom: - Di muito? O mdico deve chegar logo.
- No tanto como a princpio. 
- Voc estava muito convincente, parecendo inconsciente. At eu fiquei 
assustada.
- Se tudo fracassar, conseguirei um lugar para voc no teatro. Achei 
aquela parte sobre seu pai na guilhotina muito comovente!
- Foi o que resolvemos dizer - respondeu ela, na defensiva.
- O que voc resolveu! Mas no faz mal, isto dar o que falar, e, afinal 
de contas,  o que voc quer.
- J ouviu falar de sir Ralph Trevellyan?
- Nunca, mas saberei algo dele conversando com o mdico prometeu Sheldon.
- Enquanto isso, Bobo quer que me deite e  melhor que voc v para o
outro quarto.
- No quer que o ajude? - perguntou, maliciosa.
 - Faa o que lhe digo.
Sabendo que ela nada podia fazer que Bobo no fizesse melhor, Cerissa se
retirou.
O mdico demorou um pouco, pois estava atendendo um doente no outro lado 
da cidade. Quando chegou, Sheldon tinha febre e se desprezava por no ser 
mais forte diante da dor.
Na realidade, ficou satisfeito com o sedativo que o dr. Price lhe deu, 
dizendo que faria com que logo adormecesse.
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- Deixem que ele descanse - recomendou o mdico.
Cerissa recebeu-o na saleta, parecendo muito jovem e pattica com seu 
vestido preto, ao qual Francine, habitualmente, acrescentara uns enfeites 
brancos.
Sabendo o quanto os mdicos gostam de bater papo, Cerissa no perdeu 
tempo em falar de si prpria. Tinha certeza de que logo os pacientes do 
dr. Price ficariam sabendo da execuo de seu pai e do saque do castelo, 
onde tantos tesouros histricos haviam sido roubados ou queimados.
- Lamento muito o que lhe aconteceu, comtesse - disse ele, sorvendo o 
timo vinho do Porto que aceitara sem que fosse necessrio que ela 
insistisse muito.
- Felizmente, meu pai teve o bom senso de aplicar dinheiro na Inglaterra 
para mim - contou Cerissa, sabendo que esta informao certamente seria 
divulgada. - H emigres que esto em situao muito pior do que a minha. 
 muita sorte eu ter um tutor. O sr. Harcourt sempre foi amigo ntimo de 
meu pai. Felizmente, estava na Frana e pde me trazer para este 
maravilhoso pas, onde estarei segura.
- Foi mesmo uma sorte. Mas tenho a impresso de que ele  muito moo para 
a responsabilidade de cuidar de uma jovem to bonita...
Cerissa fitou-o com ar inocente.
- Ele parece moo, mas, na realidade,  velho. Creio que tem a mesma 
idade de papai. Foram amigos durante muitos anos e sempre o considerei 
como um tio.
- E por que vieram para Bath? - perguntou o dr. Price, tomando outro gole 
de vinho.
- Meu tutor sabe que muitas vezes tenho tosse, no inverno. Alm do mais, 
eu no tinha coragem de ir para Londres neste momento, pois estou de luto 
fechado e no posso participar de divertimentos. Deu um suspiro profundo 
e continuou: - Para dizer a verdade... nem teria vontade.
- Compreendo. Por outro lado, no podemos deixar que fique trancada. 
Precisamos fazer com que saia, comtesse. A estao est apenas comeando, 
e seria uma pena se perdesse tantos divertimentos que Bath pode oferecer.
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- O senhor  muito amvel. - Cerissa sorriu. - Mas sinto como se tivesse 
deixado minha mocidade... na Frana.
Falou de um jeito to pattico, que o mdico sentia um n na garganta, ao 
se despedir dela.
- Voltarei amanh para ver meu paciente. Neste meio tempo, v para a cama 
e trate de no se preocupar. Vai jantar aqui em cima, provavelmente.
-  claro - respondeu Cerissa, num tom que dizia que outra ideia no lhe 
passara pela cabea. - E o senhor precisa me dizer o que devo fazer para 
ajudar meu pauvre, pauvre tutor. No desejo fazer nada, at ele melhorar.
- Ento, precisamos ajud-lo a sarar logo - disse o mdico, galante.
- Sou-lhe muito... grata - respondeu Cerissa, com voz comovida, e fez uma
reverncia que o dr. Price achou encantadora.
Depois que ele saiu, cheio de notcias que ia dar a seus outros
pacientes, a moa correu para o quarto de Sheldon.
Consternada, viu que ele estava sonolento e incapaz de prestar ateno ao
que tinha para contar.
- No precisa ficar preocupada, m'imselle - disse Bobo. - Ele sentiu
muita dor, quando o mdico lhe examinou o brao, mas o ferimento est
limpo.  s esperar uns dias, e poder descer, novo em folha!
Inconsolvel, Cerissa foi para seu quarto, ao encontro de Francine.
- Bobo disse que monseigneur no sair da cama antes de dois dias.
- Ento, a melhor coisa que voc tem a fazer  descansar respondeu 
Francine. - Est cansada, como todos ns, depois daquela viagem horrvel.
- S a ltima parte foi horrvel. Gosto da companhia de monseigneur. Foi
divertido ficar sozinha com um homem, Francine!
- Ento, quanto mais cedo encontrar um marido, melhor! E, pelo que vi 
quando chegamos, haver muita escolha.
- Os ingleses so mais altos e mais bonitos do que os franceses observou 
Cerissa, pensativa. - E tm presena. So autoritrios. Acham que o mundo 
est a seus ps.
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A empregada resmungou qualquer coisa que ela no entendeu.
- Seria agradvel pertencer  Inglaterra, Francine. Gostaria de ser 
inglesa e usar um nome ingls.
- Pois bem, trate de andar depressa. E ser mais fcil quando ficar 
bonita de novo.
- De novo? Que h de errado comigo, agora?
- Est exausta e suja da viagem. Precisa de umas quarenta e oito horas de 
sono! Depois, vai ficar de novo trs jolie, ma petite!
Cerissa bocejou.
-  uma tentao, e Bath pode esperar! Pelo menos, posso conversar com
monseigneur, j que estamos numa sute.
- Ele no quer saber de conversar! Deixe-o em paz!
Enquanto se despia, Cerissa achou que Francine devia tambm estar muito 
cansada. Em geral, no se mostrava to irritadia.
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CAPTULO IV

Cerissa abriu a porta e enfiou a cabea pela brecha. Vendo que Sheldon
estava acordando, entrou e aproximou-se da cama, com expresso ansiosa.
- Est melhor?
- Praticamente bom.
Estava sentado na cama, com o brao numa tipia, bem barbeado, de cabelos 
penteados, parecendo elegante como sempre.
Percebeu que Cerisa usava um nglig bonito e difano, de gaze azul-
clara, que acentuava a transparncia de sua pele e o negrume dos cabelos.
-  to excitante, monseigneur! Voc  um heri. Todos jornais falam de 
sua coragem.
- Os jornais? - perguntou Sheldon, bruscamente.
- Sim, h vrias colunas a respeito do incidente, no Bath Herald. E 
Chapman e Bobo foram entrevistados.
- Deixe-me ver.
Ele estava de sobrolho carregado, o que fez com que Cerissa o olhasse, 
perplexa.
- No est... contente?
- No tenho a menor vontade de aparecer nos jornais. Nem mesmo que a 
notcia s seja publicada em Bath.
Pegou o jornal e viu que a primeira pgima era quase toda dedicada ao 
assalto, com cabealhos dramticos:
CONHECIDOS SALTEADORES DE ESTRADA ENCONTRAM A MORTE NAS MOS DE UM
62
CAVALHEIRO DA ALTA SOCIEDADE. OS BANDIDOS FICARAM, MORTOS, NUMA ESTRADA
DESERTA.
Em Bath, foi recebida com satisfao a notcia da morte, na tera-feira 
tarde, de dois conhecidos salteadores que durante mais de dois anos
vinham assaltando nossos visitantes.
Conhecidos como "Joe, o Negro" e "Rufus, o Ruivo", os dois homens
atacavam as carruagens que atravessavam os pntanos fora da cidade e
roubavam os viajantes. Sua aparncia feroz e suas atitudes agressivas
assustavam as senhoras, que se viam obrigadas a lhes entregar jias e 
valores. Como s atacavam veculos que no eram acompanhados por guardas 
a cavalo, raramente encontravam resistncia.
Mas, na tera-feira, encontraram um adversrio valente: Sheldon Harcourt, 
um homem da sociedade e um distinto visitante de Bath, que acompanhava 
sua pupila, a condessa Cerissa de Valence, filha do falecido duque de
Valence.
Soube-se, mais tarde, que foi Joe, o Negro, quem abriu a porta da
carruagem, armado de uma pistola, exigindo que os viajantes lhe
entregassem seus valores. Enquanto isso, Rufus, o Ruivo, mantinha o
cocheiro e o criado negro da condessa sob a mira de sua pistola.
Sem responder  impertinente exigncia do bandido, o sr. Sheldon Harcourt
alvejou-o no corao. S quando ia caindo de costas, foi que o bandido 
puxou o gatilho, atingindo o brao do sr. Harcourt.
Rufus, o Ruivo, foi apanhado desprevenido. com grande percia e muita 
fora, o criado negro da condessa atirou um punhal que atravessou o 
pescoo do bandido. Os corpos dos dois salteadores foram encontrados no 
dia
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seguinte, assim como seus cavalos, que estavam presos numa rvore, a 
pequena distncia.
A condessa Cerissa de Valence e seu tutor esto hospedados no White Hart 
Hotel e nenhum dos dois pde ser visto, ontem, quando procurados por um 
reprter que foi indagar do estado de sade de ambos.
Mas Ted Chapman, o cocheiro, prestou depoimento perante os magistrados.
Reconhecemos que toda a cidade de Bath tem uma dvida de gratido para 
com o sr. Harcourt, por nos ter livrado desses bandidos que durante tanto
tempo agiram livremente.
- Est vendo? perguntou Cerissa, quando Sheldon acabou de ler a notcia.
- No  lisonjeira?
-  o tipo de publicidade que no me interessa. Esperemos que no 
interesse tambm aos jornais de Londres.
Cerissa olhou-o, com ar indagador.
Compreendeu que ele estava perturbado e que no desejava que certas 
pessoas, em Londres, soubessem de sua chegada  Inglaterra.
Sabia, entretanto, que nada ganharia fazendo perguntas. Sentou na beirada 
da cama e disse:
- Tenho muita coisa para contar. Francine no quis que eu o incomodasse, 
ontem, e, para dizer a verdade, dormi o dia inteiro!
- Foi o que fiquei sabendo, quando perguntei. - Olhou para Cerissa e no 
pde impedir uma expresso de admirao, ao v-la to bonita.
O repouso tinha feito com que as olheiras de cansao desaparecessem. Os
cabelos pretos, que caam quase at a cintura, pareciam atrair os raios 
de sol que entravam pela janela.
Era um dia frio, mas ensolarado, fazendo com que tudo brilhasse, l fora. 
Os olhos de Cerissa pareciam ter captado esse brilho, quando disse, 
excitada:
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- Muita gente apareceu para nos visitar. Guardei todos os cartes para 
voc, e a saleta est cheia de flores.
Sheldon sorriu.
- Mesmo que tivssemos planejado uma chegada sensacional, nunca teria 
sido to dramtica.
-  verdade. Um dos visitantes, que deixou seu carto, disse a Francine 
que  o mestre de cerimnias. Que significa isto?
- Significa que voc pode entrar nos sales de festa, onde ficar 
conhecendo as pessoas mais importantes de Bath. - Sheldon teve um sorriso 
cnico, ao acrescentar: - Quando se trata de um visitante comum, a praxe
 ele visitar o mestre de cerimnias, primeiro, para que sua presena
seja reconhecida socialmente.
- Mas o mestre de cerimnias veio nos visitar!
- Isso mostra como somos importantes - comentou Sheldon, com ar 
zombeteiro. - Quando voc o receber, vai ter que pagar a taxa,  claro.
- Temos que pagar? - perguntou a moa, surpresa.
- Posso garantir-lhe que em Bath, assim como em toda a parte, no se 
recebe nada de graa! - Notou a expresso dela e continuou:
- No se preocupe. J est pisando o primeiro degrau da escada social, 
minha querida, e  isto o que deseja.
- Voc no parece muito satisfeito.
- Claro que estou satisfeito, por sua causa.
- Seria bom se voc tambm se divertisse.
- O que voc vai fazer agora  vestir-se e ir com Francine para a sala 
onde todos vo beber a gua medicinal.
- Beber gua?
- Voc ter que tomar a gua daqui. Tem um gosto muito desagradvel, mas 
lembre-se de que o motivo aparente de nossa vinda a Bath  a sua sade, 
menina. Faa fora para tomar um ou dois goles, Pelo menos.
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- E depois?
- Depois, voc agir como achar melhor, seguindo sua intuio. O mdico 
quer que eu fique de cama at amanh.
- Oh, no! Isso  muito maante! Eu estava esperando e desejando que 
fizssemos tudo... juntos.
- Talvez seja melhor assim. Voc vai parecer pattica, de preto, e 
garanto que haver muitos cavalheiros prontos a consol-la, por causa de 
sua infeliz experincia com os bandidos e com a ausncia de seu tutor!
O tom dele era to sarcstico, que Cerissa o fitou, perplexa. Depois
Sheldon disse, zangado:
- Depressa! V logo tirar essa roupa indecente e vestir alguma coisa mais
correta. Nem mesmo um tutor devia ser tentado por uma pupila usando um
nglig assim transparente.
Cerissa levantou-se.
- No gosta dele?  o melhor que tenho e achei que voc ia ach-lo 
bonito.
-  bonito demais para voc se exibir desse modo. Agora, saia do meu 
quarto e deixe que me comporte como o doente que pareo ser!
- Os homens sempre ficam zangados, quando esto doentes observou Cerissa. 
- Mas, como quero que fique logo bom, vou fazer o que deseja. Devia ficar 
contente por me ver to obediente!
- Saia logo e v se vestir.
Depois que ela saiu, Sheldon pegou de novo o Bath Herald.
De acordo com os hbitos de Bath, era tarde quando Cerissa e Francine 
entraram na sala onde os hspedes se reuniam para tomar a gua medicinal.
com suas colunatas gregas, o prdio era um bonito projeto de Thomas 
Baldwin, mas no estava ainda completamente pronto na parte externa.
Cerissa ficou impressionada com a sala de colunas grandes e tambm com a 
galeria para a orquestra. Num nicho, via-se o busto de um senhor gordo, 
que mais tarde ela veio a saber que era Beau Nash, que tornara Bath 
famosa, no incio do sculo. Na realidade, Nash
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fez com que Bath se transformasse na mais conhecida estao de guas da
Inglaterra.
Mas agora, em sua primeira visita, Cerissa estava interessada em chegar
perto de uma mulher elegantemente vestida, que usava um gorro alto e 
distribua copos da clebre gua medicinal.
Caminhou lentamente, com dignidade, de olhos baixos, fingindo no 
perceber que chamava a ateno de todos.
No havia tanta gente como de manh cedo, quando a sala ficava repleta de 
doentes. Agora, os que ali estavam tinham ido para encontrar os amigos e 
tambm para serem vistos. Na realidade, procuravam passar o tempo de 
maneira agradvel, indo depois para a biblioteca, para os sales de 
leitura e para os bares.
Cerissa estava no meio da sala, quando um homem se aproximou. Reconheceu 
sir Ralph Trevellyan.
Pareceu-lhe ainda mais bonito e mais vistoso do que na noite em que 
chegara. Inclinou-se diante dela e disse:
-  com grande prazer, comtesse, que vejo que est melhor. Fui at seu 
apartamento, ontem, mas disseram que no podia receber visitas e tive 
receio de que estivesse sofrendo as consequncias de sua terrvel 
experincia da vspera.
- Bon jour, sir Ralph. - Fez uma reverncia muito graciosa. Foi muita 
gentileza sua aparecer e, mais ainda, deixar aquele magnfico ramalhete 
de flores. Merci mille foisl
- Foi uma homenagem muito pequena, considerando-se o que esta cidade lhe 
deve e ao seu valente tutor.
- Vous tes bien amiable. Foi uma experincia que espero que jamais se 
repita.
- Compreendo perfeitamente.
- Tivemos sorte de... no ter sido pior - observou a moa, corajosamente.
- O dr. Price me disse que o ferimento do sr. Harcourt no  grave.
- O dr. Price  trs svre - disse Cerissa, sorrindo. - No permite que 
monseigneur saia da cama, embora ele deseje levantar-se.
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- E tem toda a razo! Mas, na ausncia dele, peo-lhe que me conceda a
honra de acompanh-la.
- Espero estar segura aqui - disse Cerissa, apreensiva. - E minha criada
me acompanha.
- No h mais perigos daquele tipo, garanto-lhe. Mas espero que 
compreenda que todo mundo, em Bath, est ansioso para conhec-la.
- Conhecer-me?... - perguntou, com fingida surpresa.
- Sim. No somente  a herona de um incidente dramtico, como  tambm, 
se me permite diz-lo, muito bonita!
Cerissa conseguiu aparentar uma adorvel confuso. Enquanto isto, sir 
Ralph a apresentou a vrias senhoras.
Cerissa achou difcil guardar tantos nomes, mas percebeu que todas elas 
eram da nobreza. Notou tambm que no estavam to elegantemente vestidas 
como esperara, mas os trajes eram de cetim, veludo ou seda, fazendas da 
melhor qualidade, e as jias muito finas.
Compreendeu que, para damas to distintas, no havia necessidade de 
ostentao, nem de se apresentarem na ltima moda. Sua posio na 
sociedade no dependia de adornos.
Cerissa percebeu tambm que sua aparncia modesta, seu vestido preto e a 
ausncia de jias causaram muito boa impresso. Alm do mais, tinha 
dignidade e altivez, sem parecer demasiadamente segura de si.
No ficou conversando muito tempo com os amigos de sir Ralph, e o fez de 
propsito. Disse que o dr. Price insistira para que fizesse uso da gua. 
Dirigiram-se ao balco para um gole e viu que Sheldon tinha razo, ao 
dizer que ela no ia gostar. Era, de fato, desagradvel. A moa teve 
bastante ta to para no dizer isto, mas tambm no fez nenhum esforo 
para continuar bebendo.
- Deixe-me mostrar-lhe o "banho do rei" - sugeriu sir Ralph.
- Quer dizer que, daqui, podem-se ver os banhos quentes?
- Sim. O "banho do rei" fica bem embaixo de uma destas janelas. Levou-a 
para uma janela. Olhando para fora, Cerissa viu uma poro de pessoas
imersas at o pescoo na gua quente.
Ficou admirada, pois homens e mulheres tomavam banho juntos.
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As mulheres usavam blusas e saiotes de linho marrom e estavam de chapu 
de palha, alguns com fitas azuis ou vermelhas.
- Que estranho! Sir Ralph riu.
- Realmente parece estranho, na primeira vez, mas as pessoas fazem tudo 
para ficar curadas, e no h dvida de que estas guas so muito 
eficientes.
- Mas eu detestaria tomar banho com toda essa gente!
- Parece mesmo pouco elegante.
- Que acontece com as roupas, depois do banho?
- As senhoras so despidas p rempregadas idosas e enroladas em 
cobertores. Depois, quase todas so levadas para suas acomodaes, em 
cadeiras Bath.
Cerissa deu uma risada.
- Que significa uma cadeira Bath?
- Logo ver - prometeu sir Ralph. - Creio que foram inventadas na poca 
de Nash e so muito usadas para o transporte dos doentes. Ohe, l vem 
uma!
Apontou para uma cadeira de rodas que estava sendo empurrada por um 
criado. Nela vinha sentada uma senhora idosa, gorda, cheia de brilhantes 
e com as mos num regalo de peles.
Cerissa no pde deixar de rir.
- Vai levar muito tempo at precisar andar numa dessas, condessa
- disse sir Ralph, em tom tranquilizador. - Muita gente acha a liteira,  
que aqui tambm  chamada de cadeira Bath, muito til, quando se vai 
jantar fora. Quando a distncia  curta, isso evita o uso de uma 
carruagem.
- J viajei de liteira, mas acho muito engraado cham-la de cadeira
Bath.
- Tudo, em Bath,  propaganda para a cidade. H tambm um biscoito
chamado "Bath Oliver", que foi inventado por um mdico famoso, sir 
William Oliver.
- Espero que seja mais gostoso do que a gua! Sir Ralph pegou o copo da 
mo dela.
- No tente beber mais. No a denunciarei ao dr. Price!
69
- Obrigada - disse a moa, sorrindo. - Agora, acho que preciso voltar 
para a companhia de meu tutor. Ele deve estar imaginando por que demoro 
tanto.
- H muito mais coisas que lhe quero mostrar e muitas pessoas que desejo 
que conhea.
- Talvez em outra ocasio - disse Cerissa, em tom vago.
- Posso lev-la a um passeio de carruagem, hoje  tarde? Est um lindo 
dia e gostaria de mostrar-lhe as belezas da cidade. - Como Cerissa 
hesitasse, ele insistiu: - Por favor, aceite. Isto me daria imenso 
prazer.
- Acho melhor perguntar ao meu tutor. Estou h pouco tempo na Inglaterra 
e no quero fazer nada que no seja correto. Para dizer a verdade, acho
que ele ficaria muito bravo, se eu fizesse alguma coisa errada!
-  muito severo?
- Muito! - respondeu, com um arzinho triste. - Ele procura tomar o lugar 
de... meu pai.
Deu um suspirozinho, e sir Ralph disse, comovido:
- Sei como deve se sentir solitria e infeliz, mas vamos tentar fazer com 
que aqui, na Inglaterra, esquea o que sofreu na Frana.
- Seria impossvel esquecer - respondeu Cerissa, em voz baixa.
- Mas talvez... com o tempo... no seja to... torturante.
-  muito corajosa.
- Procuro ser... mas nem sempre o consigo.
- Se algum dia precisar de um amigo, estarei sempre s suas ordens, 
pronto para servi-la - disse ele, em voz baixa.
Cerissa olhou-o de relance e depois desviou o olhar, como se estivesse 
constrangida.
- Acho que... preciso voltar para o hotel.
- Vou acompanh-la.
Caminharam juntos, com Francine dois ou trs passos atrs. O White Hart 
ficava prximo, de modo que chegaram em poucos minutos.
- Vejo que Bath  muito bonita - comentou Cerissa, olhando ao redor.
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- Vou lhe mostrar todas as praas e outros lugares dos quais o povo de
Bath se orgulha. Iremos no meu faetonte.
- No posso prometer acompanh-lo, a no ser depois que falar com meu
tutor.
- No pode perguntar agora? Talvez sua empregada possa vir darme a 
resposta.
- Farei isso, se ele no estiver dormindo.
- Ento, ficarei esperando aqui - disse sir Ralph, quando entraram no 
hall do hotel.
- Obrigada por ser to gentil comigo - ela falou, com uma vozinha 
infantil.
Subiu a escada lentamente, percebendo que ele a observava. Bateu  porta 
do-quarto de Sheldon e entrou imediatamente.
- Fiz sucesso! Sir Ralph Trevellyan, o homem que nos mandou o dr. Price, 
est a meus ps! - Atravessou o quarto e sentou-se na beira da cama. - 
Quer me levar a passear, hoje  tarde, no seu faetonte. Respondi que no 
podia aceitar sem a sua permisso e que voc  muito severo.
Aps um momento, Sheldon disse:
- Pelo que me contou o mdico, sir Ralph  um homem muito rico, muito 
mesmo. Mas  a primeira vez que vem a Bath e o dr. Price nada sabe a 
respeito dele.
- Que acha que devo fazer? Devo aceitar o convite, ou deix-lo em dvida 
por mais um dia?
- Ele talvez tenha... outros interesses - observou Sheldon, em tom azedo.
- No parece ter. Todas as senhoras a quem me apresentou hoje so idosas,
ou de meia-idade. Garanto que tm maridos e vrios filhos em casa!
- O mdico disse que Trevellyan est aqui sozinho e tomou uma sute no 
York House, que, pelo que me consta,  um hotel superior a este.
- Acha que devamos ter ido para l?
- Pode ser... mas talvez tenha sido melhor assim. O dr. Price
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me disse que toda Bath est comentando nossa chegada, quando os 
convidados de lorde Walburton estavam reunidos para o banquete.
- Tenho sorte... muita sorte! Desde que cheguei a Calais, tudo tem 
parecido um sonho maravilhoso. Estou mantendo os dedos cruzados, com medo 
de que voc desaparea.
- Pensei que estivssemos falando de sir Trevellyan.
- Ele est interessado por mim, mas preciso conhecer outros antes de 
fazer minha escolha. Voc  diferente. Sem voc, nada disto teria 
acontecido.
Havia na voz de Cerissa uma inconfundvel nota de sinceridade.
- Obrigado - disse Sheldon, secamente. - Mas, como no dispomos de muito 
tempo, sugiro que resolva seus problemas o mais depressa possvel.
Houve uma pausa.
- Est se referindo ao dinheiro?
-  certamente uma das coisas que me preocupam.
- E as outras? - perguntou Cerissa.
- No h necessidade de se preocupar no momento. Aceite o convite de sir 
Ralph e veja o que pode descobrir a seu respeito. No vale a pena 
desperdiar seus encantos.
- No... claro que no.
Quando se levantou para ir ao encontro de Francine, a excitao tinha 
desaparecido de seus olhos e ela saiu do quarto a passos lentos.
O passeio com sir Ralph foi um sucesso.
Cerissa admirou, primeiro, o faetonte moderno e caro, puxado por dois 
magnficos cavalos; depois, a prpria cidade.
No havia dvida de que a Queen's Square, o Circus e o Parade eram belos 
exemplos de arquitetura.
- S espero que a guerra com a Frana no impea que os planos feitos 
para o embelezamento de Bath sejam executados - disse sir Ralph.
- Mas certamente a guerra no vai durar muito.
- Espero que no, mas h sempre a possibilidade de a guerra no continente 
se arrastar indefinidamente.
Cerissa suspirou.
72
- J h bastante sofrimento na Frana.
- Compreendo que pense assim. Vamos falar de coisas mais agradveis. De 
voc, por exemplo.
- Creio que j sabe tudo a meu respeito. Atualmente, no suporto falar de 
tempos mais felizes, de antes da... revoluo. - Continuou, com voz 
trmula: - Ento, sir Ralph, vamos falar do senhor. Conte-me alguma coisa 
de sua vida.
- Moro numa casa muito grande, em Oxfordshire.
- Mora sozinho?
- Sim, a no ser quando tenho hspedes, meus amigos, o que  frequente.
- Compreendo que precise deles; do contrrio, se sentiria muito s.
-  verdade. E creio que voc acharia minha casa no apenas bonita, como 
confortvel. Talvez, depois que sarem de Bath, voc e seu tutor me faam 
uma visita.
- Ser que podemos? Oh, gostaria muito! Ouvi falar das grandes manses, 
na Inglaterra, e teria prazer em visitar uma delas!
- com certeza, seu tutor lhe falou da manso da famlia dele. Donnington 
Hall  impressionante, realmente impressionante.
Cerissa no disse nada. No podia confessar que nunca tinha ouvido falar 
de Donnington Hall, nem que Sheldon tivesse qualquer relao com a 
famlia.
- Fale-me mais de sua casa - sugeriu ela.
Sir Ralph sentia prazer em falar dos tesouros que seus antepassados 
tinham acumulado durante sculos.
No demoraram muito no passeio, porque, assim que o Sol se escondeu, a 
tarde esfriou.
- Vai gear esta noite - disse ele, virando os cavalos na direo do 
hotel. - Por outro lado,  mais quente em Bath, do que em qualquer outro 
lugar na Inglaterra.
- Ento, acho que tenho sorte por estar aqui.
- E ns temos sorte por t-la aqui. Quando chegaram diante do hotel, ele 
disse:
- Estou pensando se seu tutor permitiria que eu a levasse para jantar em 
casa de lady Imogen Kenrrdge, hoje  noite
73
Cerissa fitou-o com ar indagador, e ele continuou:
- Lady Imogen  irm do marqus de Wychwood. Est aqui com a me, a 
marquesa-me, mas, como  viva, tem sua prpria casa. Sir Ralph puxou as 
rdeas, fazendo a carruagem parar. - Lady Imogen tem uma casa 
encantadora, em Queen's Square. Sei que ficaria feliz em receb-la. 
Quando voc chegou, ela a viu, porque estava jantando com lorde 
Walburton.
- Terei prazer em aceitar, mas primeiro preciso consultar meu tutor.
- Mandarei um de meus criados saber sua resposta, daqui a meia hora. - 
Sorriu e acrescentou: - Parece um tanto informal convid-la  ltima 
hora, mas sei que lady Imogen lhe escrever, reforando o convite, assim 
que eu lhe disser que voc pode ir.
- Muito agradecida por um passeio agradvel e interessante.
Sir Ralph entregou as rdeas a um lacaio e pulou do faetonte para ajudar 
Cerissa a descer. Segurou a mo da moa um pouco mais demoradamente do 
que o necessrio. Depois, quando ela se dirigia para a escada, ele disse, 
com insistncia:
- Por favor, venha esta noite. Ficarei muito decepcionado, se no vier.
Havia na voz dele qualquer coisa juvenil que fez com que Cerissa 
sorrisse, quando se dirigia para o quarto de Sheldon.
Estava corada, devido ao frio, e muito bonita. No quarto, a lareira 
estava acesa.
- Ele est de fato entusiasmado comigo - disse, sem mais prembulos. - 
Perguntou se pode me levar, esta noite, para jantar em casa de lady 
Imogen.
- De quem?
- De lady Imogen Kenridge. Tenho certeza de que  este o nome. A filha do 
marqus de Wychwood. Seu pai deve ter morrido, porque sir Ralph disse que 
o irmo dela  agora o marqus.
- Sim,  isso mesmo.
- Ela  sua amiga?
- No, no , mas sei de quem se trata.
74
Havia qualquer coisa na voz de Sheidon que fez com que Cerissa
o encarasse.
- No deseja se encontrar com ela? - perguntou.
- No, no  nada disso. Mas talvez ela conhea o meu passado e eu estava 
querendo evitar isso.
- Sir Ralph disse que a casa de sua famlia se chama Donnington Hall.
- Ento, eles sabem - Sheidon murmurou. - Acho que seria mesmo impossvel 
guardar segredo, a no ser que eu viajasse com outro nome.
- Guardar que segredo?
- Eu lhe conto, um dia. Agora, acho que o seu admirador quer saber se
pode ir jantar com ele hoje.
- com lady Imogen, no apenas com ele - corrigiu Cerissa.
- Ainda bem! - Aps uma pausa, Sheidon disse, irritado: Ento, o que est 
esperando? Diga-lhe que aceita com prazer e que est ansiosa para se 
atirar em seus braos, assim que ele os abrir para receb-la.  o que 
deseja, no ?
A rudeza de seu tom deixou Cerissa perplexa.
- Pensei que era o que ns dois... queramos.  um homem muito rico... e 
vive sozinho.
- Est disposta a casar com ele?
Houve um momento de silncio. Cerissa respondeu, hesitante:
- No tenho certeza. Mas, pelo menos, ele pertence  alta sociedade. 
Conhece as pessoas certas... as que desejo conhecer.
- Ento, escreva seu bilhete. Diga que est esperando ansiosamente que 
ele venha busc-la, que  provavelmente o que vai fazer.
Cerissa atravessou o quarto.
- Acho que voc est precisando  de um pouco de gua medicinal para 
curar o mau humor - disse.
Saiu do quarto, e Sheidon caiu sobre os travesseiros, envergonhado de sua 
atitude.
Quanto mais cedo ele deixasse de agir como uma criana mimada, melhor!
No se irritaria facilmente, quando sasse da cama, disse a si mesmo.
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Depois pensou que talvez sua inatividade forada fosse proveitosa.
Duvidava de que o convite tivesse sido feito to prontamente, se ele 
tivesse que ser includo.
No havia nada que apelasse mais para o cavalheirismo de um homem do que 
ver uma mulher jovem e corajosa lutando sozinha, num mundo difcil. E, 
certamente, Cerissa estava explorando a situao com grande vantagem.
Mas ele tinha suas prprias ideias a respeito daquela noite e mandou 
chamar Francine. Quando ela apareceu, Sheldon disse, bruscamente:
- Voc vai acompanhar mademoiselle, quando ela for jantar fora. V com 
ela na carruagem e espere na casa, para acompanh-la na volta.
A empregada pareceu surpresa, e Sheldon explicou:
- Precisamos proteger a reputao de mademoiselle. Seria um erro ela 
parecer muito ansiosa para aceitar o convite.
- Monsieur tem toda a razo.
Havia aprovao tanto na voz quanto nos olhos de Francine. - Conheo 
muito bem a alta sociedade e sua lngua venenosa disse Sheldon, como se 
falasse consigo mesmo.
Sheldon no viu mais Cerissa, at ela aparecer em seu quarto, j vestida 
para o jantar, vindo pedir sua aprovao.
Estava mais bonita do que nunca, com um vestido de gaze preta que tinha 
pertencido  sua me. Os ombros nus pareciam muito brancos contra a 
fazenda macia.
O vestido realava as formas do corpo. No pescoo, ela usava o colar de 
prolas.
Francine lhe fizera um penteado com cachos e ondas que pareciam naturais. 
O nico tom colorido eram dois botes de rosas, nos cabelos negros.
Os olhos de Cerissa pareciam enormes. Ao p da cama, ela esperava a 
aprovao de Sheldon, e ele achou que no podia haver no mundo uma 
criatura mais linda.
Era realmente nica, completamente diferente de todas as moas que
conhecia. Tinha certeza de que ia conquistar todos os homens, na
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quela noite, mesmo que as mulheres no ficassem muito satisfeitas com
isso.
- Voila! Estou como voc queria que eu estivesse? - perguntou a moa,
vendo que ele nada dizia.
- Acho que no precisa que eu junte meus aplausos aos da multido -
respondeu, com azedume.
- Ainda est zangado?
Ele ficou calado. Ela se aproximou da cabeceira da cama e seguroulhe a 
mo.
- Se eu fizesse o que tenho vontade de fazer, ficaria aqui com voc - 
disse, em voz baixa. - Poderamos jantar juntos e falar sobre todas as 
coisas que desejo saber e que s voc pode me ensinar. Apertou a mo dele 
e continuou: - Mas sei que est preocupado com dinheiro e que at a 
comida custa caro.
- Tem razo. Perdoe-me por ser desagradvel, mas  aborrecido estar 
doente.
- Claro que . Nenhum homem gosta de ficar doente.
- V se divertir e no se preocupe com sua aparncia. Deixar a todos 
pasmos.
- Pasmos? Que quer dizer isso?
- Vo ficar atnitos, boquiabertos. Voc vai fazer um succsfoit e ser a
coqueluche de Bath!
Ao ver que os olhos dela se iluminaram, Sheldon riu.
- Est muito bonita!  o que deseja que eu diga, no ? Pois bem, j 
disse. Agora, v.
Cerissa inclinou-se.
- Bon soir, monseigneur. - E beijou-lhe a face.
A casa de Queen's Square era imponente. Foi o que Cerissa percebeu, assim 
que entrou no hall.
Havia numerosos lacaios de libr azul, com botes prateados, tendo estes 
o braso da famlia.
Enquanto sV Ralph a acompanhava pela escada entalhada, ela ouviu vozes e 
percebeu que o jantar ia ser maior do que esperava.
Havia, de fato, umas trinta pessoas no salo onde se viam cinco lustres 
de cristal e cortinas de brocado azul. As paredes eram brancas,
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com desenhos dourados. Assim que conheceu lady Imogen, Cerissa 
compreendeu que as cores, assim como a prpria manso, eram um ambiente 
apropriado para a dona da casa.
Aos vinte e cinco anos de idade, lady Imogen estava no auge da beleza. 
Como esperava uma pessoa mais velha, Cerissa levou um choque.
Por lady Imogen ser viva, ela julgara que fosse da idade de sir Ralph. 
Uma jovem deusa, vestida de cor-de-rosa, branco e dourado, deixou-a de 
respirao suspensa.
Lady Imogen tinha de fato sido proclamada uma das "Incomparveis" da 
corte, assim que sara da escola. Aos dezessete anos, conquistou Londres; 
aos dezoito, casou com Julian Kenridge, filho e herdeiro da imensa
fortuna de um par do reino. O comportamento extravagante e as ideias
excntricas de julian eram largamente comentados na alta sociedade.
Trs anos depois, ele morreu, tomando parte, de olhos vendados, numa
ridcula corrida de carros,  meia-noite, devido a uma aposta de
quinhentos guinus.
Era uma maneira idiota de arriscar a vida, mas Julian, Kenridge nunca 
tinha tido bom senso, a no ser, talvez, na escolha da esposa.
Lady Imogen no chorou muito sua morte. Pelo contrrio, achou agradvel, 
aos vinte e um anos, ser uma viva com uma imensa fortuna e tendo quase 
todos os homens de Londres a seus ps.
A famlia quis que casasse de novo, o mais depressa possvel, mas Imogen 
recusou todos os pedidos de casamento, fazendo questo de ser dona de seu 
nariz e, graas  fortuna do marido, no dependei de ningum.
Suas aventuras amorosas eram comentadas em St. James. Mas, devido  sua 
beleza,  sua fortuna e ao fato de ser filha de um marqus, era
impossvel que a deixassem no ostracismo. E, invariavelmente, conseguia o
que queria.
Tinha visto a chegada espetacular de Cerissa e de Sheldon, e isso a
divertira, simplesmente porque era um fato inusitado.
Achava Bath muito maante, mas de vez em quando era conveniente sair de
Londres. Naquele ano, o estado de sade de sua me foi
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uma excelente desculpa para ela fugir de um caso de amor que se tornava 
incontrolvel.
Apesar dos inmeros admiradores que a seguiram at a estao de guas, 
depois de um ms Imogen comeou a achar muito aborrecido o regulamento 
imposto por Beau Nash.
Procurou alguma coisa que quebrasse a monotonia e encontrou-a quando viu 
Sheldon Harcourt sendo carregado para o andar de cima, no hotel. Um 
simples olhar para o rapaz bonito e elegante lhe contou que era por isso 
que ela estivera esperando.
Lady Imogen estava habituada a seguir seus impulsos, por mais 
extravagantes que fossem. Uma vez que se fixava num objetivo, no deixava 
que nada a desviasse dele, at consegui-lo.
Naquela noite, antes de entrar no salo de jantar, resolveu que Sheldon 
Harcourt iria significar alguma coisa em sua vida. Era apenas questo de 
saber quando o conheceria, e tinha que ser o mais depressa possvel.
Viu sir Ralph conversando com Cerissa, de manh, na sala onde iam beber a 
gua medicinal, e depois disto achou que o encontro com Sheldon no seria 
difcil.
- Estou encantada por conhec-la, comtesse - disse, assim que sir Ralph 
lhe apresentou Cerissa. - Sei que deve ser muito triste chegar sozinha a 
uma cidade desconhecida.
- Estou com meu tutor - respondeu Cerissa, docemente.
- Mas, infelizmente, ele est hors de combat - respondeu lady mogen. - 
Assim sendo, precisamos tomar conta de voc, at que ele esteja em 
condies de faz-lo.
-  muita amabilidade sua - murmurou Cerissa.
-  o que todos querem fazer para ajud-la. Vou apresent-la aos meus 
amigos.
Conduziu Cerissa pela sala; conforme o costume ingls, disse os nomes to 
depressa que Cerissa achou muito difcil lembrar-se deles. Mas sabia que 
sir Ralph lhe diria quem era importante. No tardou a perceber que todos 
os rapazes se sentiam atrados pela dona da casa.
Sentiu alvio ao se ver  mesa, sentada ao lado de sir Ralph. Ele lhe
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disse quem eram os convidados e contou algumas coisas divertidas a 
respeito deles.
Sem querer, Cerissa riu de um idoso par do reino, cuja terceira esposa 
estava gastando sua fortuna to depressa que ele a trouxera para Bath, 
para uma mudana de ambiente. Mas, ali chegando, percebeu que ela no 
saa da mesa de jogo e estava, na realidade, gastando mais do que em 
Londres.
Um dos rapazes mais jovens, D'Arcy Arbuthnot, tentava casar com uma 
herdeira, havia muitos anos, mas a moa o deixara na expectativa de 
propsito, para lhe dar uma lio. Quando ele a pediu em casamento, foi 
recusado sumariamente.
Havia muitos homens simpticos, mas eram casados. E havia outros to 
decrpitos que, apesar de seus ttulos sonoros e das imensas fortunas, 
provocaram em Cerissa um estremecimento de horror, s de pensar na 
hiptese de casar com um deles.
No final das contas, o nico bom partido parecia ser mesmo sir Ralph.
Foi com alvio que percebeu que, apesar da grande beleza da anfitri, sir 
Ralph ainda olhava para ela, Cerissa, com a mesma admirao que 
manifestara  tarde.
Depois do jantar, jogaram cartas, e ele insistiu em bancar o jogo de 
Cerissa.
- Talvez eu no deva permitir que faa isso - disse ela, hesitante.
- Sinto-me honrado em poder fazer. E tenho certeza de que, como 
refugiada, voc no pode jogar dinheiro fora numa coisa to tola como um 
jogo de cartas.
- No sou to pobre como a maioria dos emigres - respondeu num tom 
infantil. - Mas ainda no sei quanto papai aplicou para mim, em dinheiro, 
aqui na Inglaterra. Sei que h alguma coisa, mas, naturalmente, o grosso 
de sua fortuna estava na Frana.
- Tenho certeza de uma coisa - disse sir Ralph. - Onde quer que esteja, 
onde quer que v, seu rosto ser sua fortuna.
- Obrigada.
No teve sorte no jogo e sir Ralph pagou suas dvidas.
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Na hora da despedida, Imogen apertou a mo da moa, calorosamente.
- No tive oportunidade de conversar com voc, o que  uma pena. Amo a 
Frana, o povo francs, sua arte, o modo civilizado com que os franceses 
encaram a vida. Precisamos ser amigas, comtesse.
- Obrigada.
- Quando poderemos nos encontrar de novo? - Sem esperar resposta, a 
prpria Imogen sugeriu: - Por que no amanh? E preciso conhecer seu 
tutor. Podem vir almoar aqui?
Cerissa hesitou.
- O dr. Price disse que monseigneur pode levantar-se amanh, mas no sei 
se ter permisso para sair.
- Creio que ser bom para ele. Vou fazer uma coisa: mandarei ao seu hotel 
a carruagem de minha me, que foi feita especialmente para uma pessoa 
doente. Assim, no haver problema! - Sorriu e continuou: - No ser uma 
reunio grande, pois seria cansativo para seu tutor. Seremos s ns e, 
naturalmente, nosso querido sir Ralph. Assim, quando o sr. Harcourt se 
sentir cansado, mandarei a carruagem levlos de volta ao hotel.
Olhou para sir Ralph e perguntou:
- No  uma boa ideia?
- No que me diz respeito, muito boa!
- Ento, est decidido - disse lady Imogen, antes que Cerissa pudesse dar 
sua opinio. - A no ser que me mande algum recado, comtesse, a carruagem 
estar  porta do seu hotel amanh, ao meio-dia.
-  muita gentileza sua.
No havia mais nada a dizer. S quando entrou na carruagem de sir Ralph,
acompanhada por Francine, foi que percebeu que estava sendo manobrada, 
embora no soubesse por que motivo. Em todo caso, Sheldon iria se 
interessar pela casa, pelos quadros e, naturalmente, por lady Imogen.
Sentada ao lado de sir Ralph, a caminho do hotel, teve a desagradvel 
impresso de que talvez Sheldon ficasse interessado demais.
Lady Imogen era to bonita!
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CAPTULO V

- H muita coisa que se pode fazer em Bath - disse lady Imogen,
suavemente. - Mas, para mim, tem sido muito maante... at agora.
No havia dvida quanto  nfase que deu  ltima palavra, nem ao fato de 
que seus olhos azuis fitaram Sheldon com um convite claro.
Assim que chegou a Queen's Square, Sheldon percebeu que o interesse de 
lady Imogen no era por Cerissa, e sim por ele.
Era muito experiente para no notar as intenes dela e,  medida que o 
almoo progredia, o jeito cnico de seus lbios se tornou mais 
pronunciado, assim como a expresso zombeteira dos olhos.
Tinha ficado em dvida se seria sensato aceitar outro convite, em favor 
de Cerissa, feito por lady Imogen.
Na realidade, achava que seria mais vantajoso para a moa aparecer nos 
sales de festa, onde se reuniam as pessos importantes e onde teria maior 
escolha, antes de ficar muito envolvida com sir Ralph Trevellyan.
Depois compreendeu que no havia crculo social mais importante que o de 
lady Imogen e o de sua me, e que  festa da vspera tinham comparecido 
muitas pessoas ilustres.
Sheldon sabia perfeitamente que o nmero de rapazes que vinham a Bath era 
muito limitado.
A estao de guas era mais procurada por pessoas doentes e idosas; foi 
apenas graas  inteligncia de Beau Nash, que se tornara tambm um ponto 
de encontro dos aristocratas. Mas depois de sua morte, um pouco do brilho 
e do encanto da cidade desapareceu.
Sheldon, entretanto, achou que as coisas estavam acontecendo como
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ele previra e, como no aguentava mais ficar trancado no quarto,
resolveu que seria tolice recusar o convite de lady Imogen.
A carruagem era muito confortvel, desenhada especialmente para que a 
marquesa-me, apesar da artrite que a deixara quase paraltica, pudesse 
viajar com conforto, quando necessrio.
O dr. Price estava muito satisfeito por ver que o ferimento de Sheldon 
cicatrizava rapidamente. Afinal, a bala o pegara apenas de raspo e se 
alojara na almofada da carruagem.
Bobo era um criado de quarto muito eficiente, tendo vrias vezes servido 
o duque, e Chapman tambm tinha grande habilidade para lustrar botas, a 
moda exigindo que brilhassem.
Graas tambm a Francine, que lavava e engomava suas camisas e seus 
lenos, Sheldon gozava agora de um conforto que no tinha desde que 
deixara a Inglaterra, cinco anos antes.
- Naquele tempo, quando eu vivia em casa... - murmurou. Interrompeu-se 
bruscamente.
De que adiantava relembrar o passado? Quanto menos ele e as pessoas que 
estavam em Bath pensassem nisso, melhor!
Embora seu brao estivesse numa tipia e tivesse que usar o palet nos 
ombros, estava muito elegante e muito bonito. Desceu a escada do hotel ao 
lado de Cerissa.
com um vestido de veludo preto enfeitado de arminho e levando na mo um 
regalo de arminho, ela estava to bonita que at os empregados do hotel 
no puderam conter a admirao.
O recepcionista no deixou de notar que a carruagem da marquesame
esperava  porta e que o lacaio que a abriu os recebeu com uma cortesia
quase reverente.
- Francine disse que, aqui no hotel, esto muito orgulhosos por t-lo 
como hspede, j que voc  um heri - disse Cerissa a Sheldon, assim que 
a carruagem partiu.
- No estou interessado em homenagens, nem em louros. Ao mesmo tempo, 
quero cumpriment-la por ter manobrado to bem as coisas, a ponto de se 
ver agora numa situao vantajosa!
Sheldon no parecia muito satisfeito. A moa chegou mais perto e enfiou a 
mo na dele.
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- Estou muito feliz por sair com voc e irmos juntos a uma reunio.
- Sir Ralph estar  sua espera. - Sheldon falou em tom frio, mas apertou 
a mo de Cerissa.
-  excitante! Diga que  excitante!
- A charada? - perguntou ele.
- Estamos enganando todo mundo e sendo muito espertos. Mas, se voc no 
gostar da dissimulao, ento, tudo ficar estragado!
Ele riu.
- Voc est considerando tudo uma brincadeira, mas no deixa de ser 
srio.
- Sei disso - ela respondeu -, mas fico feliz quando voc ri e seus olhos 
brilham! Quando se mostra severo e me prega um sermo, parece que uma 
nuvem negra me envolve!
Sheldon riu de novo.
- Vou tentar ser menos sombrio.
- E diga que  divertido, trs amusant, estarmos enganando essa gente
estpida, que no tem a mnima ideia de que no somos quem fingimos ser.
- No conte vantagem. Nunca se deve subestimar o adversrio!
- Isso  o que so! Adversrios - comentou Cerissa, excitada.
- E vamos vencer todos eles e ficar ricos... trs riches... ns dois.
Sheldon no respondeu, mas segurou a mo dela, at chegarem a Quen's 
Square.
S quando viu a expresso do olhar da lady Imogen, compreendeu que ia 
haver encrenca.
O almoo foi delicioso, e no havia dvida de que sir Ralph fazia o 
possvel para ser agradvel ao tutor de Cerissa.
Foi num estado de muito bom humor, para o qual os vinhos excelentes 
haviam contribudo, que eles saram da sala de jantar e foram para o 
salo branco e dourado.
- Venha se sentar ao p do fogo - disse Imogen a Sheldon. Precisa 
descansar e ficar bem acomodado, do contrrio, o dr. Price vai se zangar
comigo.
Sheldon aceitou o convite. Imogen sentou-se perto dele, para que,
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se falassem baixo, sua conversa no fosse ouvida por Cerissa e sir Ralph.
Sir Ralph mostrava  moa um lbum com vistas da Bath antiga e desenhos 
de Prior Prk, uma magnfica casa particular, nos arredores da cidade, 
construda por John Wood, responsvel pela construo de muitas outras 
casas bonitas.
Suas vozes chegavam at Sheldon num murmrio. Para chamar a ateno sobre 
si, lady Imogen disse, suavemente:
- Desejei conhec-lo, desde o momento em que o vi sendo carregado para 
cima como um centurio romano. - Ele no respondeu e ela continuou: - Mas 
agora acho que j nos vimos antes.
- Voc era muito moa e Londres no falava de outra coisa, a no ser de 
sua beleza.
- Voc me lisonjeia, mas espero ter melhorado, com a idade.
- Que posso responder a isso? Nada, a no ser que uma flor desabrochada 
est no apogeu da beleza!
Lady Imogen pegou a mo dele.
- Sheldon... somos velhos amigos e creio que posso cham-lo assim... o 
que andou fazendo durante todos estes anos?
- Estava morando na Frana.
- Ah! H tantas mulheres bonitas, l, que deve achar difcil trocar 
orqudeas exticas pelas singelas margaridas inglesas.
- Seria difcil descrev-la como " margarida".
- E como me descreveria? - perguntou ela, meiga.
- Voc no deve desafiar meu poder de imaginao. Alm do mais, ouvi
dizer que inmeros admiradores seus vieram de Londres para depositar os
coraes a seus ps.
Lady Imogen fez um gesto impaciente.
- Eles me aborrecem! Todos, em Londres, me aborrecem. E at agora eu 
achava que Bath tambm era maante!
Sheldon no fingiu no entender o sentido destas palavras.
- Como deve ter percebido, estou muito ocupado bancando a ama-seca!
Falou como se isto fosse um fardo, e os olhos de Imogen brilharam. Ela 
disse, suavemente:
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- Sua encantadora pupila no ter dificuldade em encontrar quem cuide 
dela e voc ficar livre para outras coisas.
Sheldon nada disse, e, dali a um momento, Imogen comentou:
-  uma pena que sir Ralph, que parece encantado com ela, no esteja 
disponvel.
Ele foi obrigado a fazer um esforo para no demonstrar interesse. 
Perguntou, com fingida naturalidade:
- Que quer dizer com "no disponvel"?
Percebeu, contrariado, que Cerissa e o companheiro tinham sado do salo.
- Conheo Ralph h muitos anos - disse Imogen. -  muito rico, de famlia 
nobre e possui uma das manses mais encantadoras que conheo.
Ele ficou calado,  espera do golpe que viria.
- Ralph casou quando era muito jovem - contou Imogen. Sua mulher est 
viva, mas  louca, de uma loucura incurvel.
Sheldon tinha suficiente controle para no demonstrar o quanto essas 
palavras o perturbavam.
- Pobre homem! - disse, sem parecer dar a isto muita importncia.
- Fale-me agora de voc.
- Ainda estou procurando uma soluo para sua pupila - disse Imogen. - E, 
para dizer a verdade, creio que encontrei uma.
- Cerissa  muito moa. No quero que seja empurrada para o casamento, s 
porque, at certo ponto, ela me incomoda. Creio que o duque aplicou muito 
dinheiro em Londres e, quando as coisas se acalmarem, ela ter uma grande 
fortuna na Frana. Pode esperar e escolher.
- Mas, nesse meio tempo, voc e eu teremos que esperar, tambm! E isto, 
meu caro Sheldon,  uma coisa que acho muito inconveniente.
- A pacincia  uma virtude.
- No para mim! Francamente, no tenho pacincia. Quando quero uma coisa, 
quero-a logo! Um fogo que no  alimentado morre logo e se transforma em 
cinzas!
A nota apaixonada de sua voz era inconfundvel.
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- Voc no mudou nada- comentou Sheldon, sorrindo. - Lembro-me de que 
falavam de sua impetuosidade. Casou com Kenridge num impulso. Fico 
imaginando se, caso tivesse vivido, ele no se arrependeria!
- Conheceu-o?
- Estivemos juntos em Oxford e ramos bons amigos. Mas eu estava fora, 
quando vocs casaram. Ao voltar, por uma razo qualquer, no nos vimos
mais.
-  mais um motivo para no perdermos tempo.
- Devido  promessa que fiz ao duque de Valence, antes de ele ser 
executado, preciso me dedicar aos pertences de Cerissa. Afinal, ela no 
conhece ningum na Inglaterra, a no ser eu.
- Isso  fcil de ser remediado. Darei festas para ela e convidarei a 
todos, em Bath, enquanto estivermos aqui. Quando voltarmos para Londres, 
voc ver que minha hospitalidade no tem rival, no que diz respeito ao 
beau monde.
- Voc tem uma resposta para todos os meus problemas - disse Sheldon. Mas 
no parecia muito convencido.
De repente, lady Imogeri bateu palmas.
- Achei! Tenho a soluo perfeita! Como fui tola em-no pensar nisto 
antes!
- Pensar em qu?
- Hoje de manh, mame me disse que Perequine vai chegar amanh. - 
Percebeu que Sheldon estava perplexo e explicou: Perequine  meu irmo e, 
como sempre, est tendo problemas com seus curadores.
- Que espcie de problemas?
- Perequine acha que est apaixonado por uma bailarinazinha bonita da 
pera, em Drury Lane. Ela  de fato fascinante, mas nada que se compare 
com a sua comtesse!
Sheldon esperou, fitando Imogen.
- Meu pai deixou um testamento muito sensato, em relao a Perequine - 
continuou ela. - Se ele casar antes dos vinte um anos, os curadores no 
lhe entregaro sua fortuna antes dos vinte e cinco.
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- Imagino que isso o mantenha na linha.
- Infelizmente, ele vai fazer vinte e um em maio e jura que, ento, 
casar com aquela criatura... sei l qual o nome dela! Na realidade, nada 
podemos fazer para evitar isso, ou melhor, foi o que pensei at agora. 
Mas a soluo  bvia.
- No sei a que se refere.
- Sua pupila... a comtesse! Ela  mil vezes mais bonita, mais atraente e,
sem dvida, mais inteligente do que qualquer bailarina que alguma vez
tenha feito piruetas no palco!
- No sei no...
- Oh, por favor, no tenha preconceitos contra Perequine, s por causa do 
que lhe contei. Ele no est mais apaixonado por aquele rabo-de-saia do 
que esteve por dezenas de outras mulheres! A nica maneira de fazer com 
que crie juzo  cas-lo com uma moa encantadora e bem-educada. - Lady 
Imogen ps de novo a mo no brao de Sheldon. - Precisamos nos unir, voc 
e eu, para fazer aqueles dois felizes. - Achou que ele no parecia muito 
convencido e insistiu: - Sabe to bem quanto eu que no h famlia mais 
importante do que a nossa, em todo o pas, e, quando Perequine entrar na 
posse de sua fortuna, ser muito rico. Suas propriedades so tantas, que 
eu no saberia enumer-las! Embora ele seja um pouco leviano, no fundo 
um rapaz encantador.
- Se for parecido com voc, deve ser mesmo!
- Eu sabia que voc ia concordar! - exclamou Imogen, triunfante.
- No tenho vontade de bancar o tutor severo, mas, depois do que me disse
a respeito de sir Ralph, acho que agora devemos ir ver o que esto
fazendo.
Nesse momento, a porta se abriu e os dois voltaram para o salo.
- Estivemos vendo seus spaniels - disse Cerissa a lady Imogen.
- So uns amores! Sir Ralph prometeu me dar um, quando eu tiver onde
mant-lo. - Ao dizer isto, olhou para Sheldon.
- Sir Ralph est sendo generoso - ele falou, num tom frio. Mas, como 
sabem, ainda no encontrei uma casa para morarmos e
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sempre achei que no adianta a gente ter um co, quando no se pode i
cuidar dele pessoalmente.
- Achei que ia dizer isso - observou Cerissa, com tristeza. Talvez mais
tarde, quando sairmos de Bath.
- Quando fizerem isso, espero que venham se hospedar em minha casa, em
Oxfordshire - interveio sir Ralph. 
- Teramos imenso prazer - respondeu Cerissa, impulsivamente. - Por 
enquanto, no podemos fazer planos.
Sheldon foi ainda nais frio. - E agora acho que est na hora de voltarmos
para o liotel.
- Est cansado? - perguntou Cerissa. 
- Um pouco.
- Ento, vamos imediatamente.
- Vocs viro amanh, de novo - disse Imogen. - Vou dar uma festa 
noite, em homenagem ao meu irmo, que chega a Bath. Pretendo convidar
muitas pessoas jovens, mas voc, minha cara conmesse, ser sem dvida a
belle da noite! 
 Cerissa fez uma pequena reverncia.
- Muito obrigada pelo almoo muito agradvel. Terei muito prazer em
comparecer  sua festa, amanh.
- E espero que seu tutor tambm venha. O ferimento estar melhor, e voc
precisa fazer com que ele descanse, para no precisar Isair daqui logo
depois do jantar.
  -  o que farei - prometeu Cerissa.
 Sheldon beijou a mo de lady Imogen.
- Estou vendo que no tenho opinio a dar sobre o que devemos
fazer - murmurou.
- No tem mesmo! - respondeu Imogen. - Amanh cedo irei
buscar a comtesse para lhe mostrar os sales de festa.
- Voc  a gentileza personificada! - comentou Sheldon.
-  o que desejo ser, para vocs dois. - No havia dvida quanIto ao
sentido de suas palavras.
A carruagem de lady Imogen os esperava l fora. Quando se afastava,
Sheldon percebeu que sir Ralph estava de p, na escada, olhando
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para Cerissa. Tinha nos olhos uma expresso que indicava claramente
seus sentimentos.
Sheldon reclinou-se no assento e disse  moa, em tom brusco:
- Voc esteve perdendo seu tempo!
- Que quer dizer com isso?
- Trevellyan  casado! Sentiu que ela se contraa.
- Impossvel! Como poderia... - Interrompeu-se. - Agora compreendo 
algumas das coisas que ele disse. Mas... onde est a esposa?
-  louca. Sua loucura  incurvel.
- Non, non! Pobre sir Ralph! Tenho tanta pena dele!
- E, naturalmente, pena de voc mesma.
- No, de fato, no. J resolvi que, por melhor que ele seja, no quero 
casar com ele.
- Tem certeza? Por que essa mudana repentina?
- No tenho absoluta certeza. Acontece que, quando estvamos vendo os 
cezinhos, ele tocou em minha mo e, sem que eu saiba por que, isso me 
deu um calafrio!
- Mas, se ele fosse livre, voc casaria com ele?
- Talvez. Como sua esposa, eu seria muito respeitvel, n'est-cepas?
- Sim, seria. Mas uma coisa que ele no pode lhe dar  uma aliana!
- No creio que ele ousasse oferecer... outra coisa... Por outro lado, 
algumas das coisas que ele disse...
- Que quer dizer com "algumas das coisas que ele disse"? perguntou 
Sheldon, em tom brusco.
- Ele me disse que, assim que me viu, achou que eu era a criatura mais
linda que jamais tinha visto, assim como um sonho que estivesse em sua
mente, mas que jamais chegaria a se materializar.
- Lindamente sentimental! - zombou Sheldon.
- Estava sendo sincero. Falava srio, e agora compreendo por que eu soube 
que ele estava sofrendo.
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- Devia ter explicado o caso da esposa, assim que comeou a dar ateno a 
voc.
- Nunca a mencionou. Acha que ele teria oferecido outra coisa... em vez 
de casamento?
- Duvido. A no ser que conhecesse a nossa verdadeira situao. Mas, 
naturalmente, sempre h essa possibilidade.
- Quer dizer, se ele soubesse que somos muito pobres e que voc tem um...
segredo, sobre o qual no deseja falar?
- Mesmo assim, se ele sugerisse se tornar seu protetor, seria um insulto 
que me obrigaria a desafi-lo.
- Pensei que os duelos fossem proibidos, na Inglaterra.
- Oficialmente, sim, mas ningum liga para essa lei!
- No gostaria que voc lutasse por minha causa. Poderia sair ferido.
- Seria muito mais provvel eu ferir meu adversrio - respondeu Sheldon, 
seco. - Fique sabendo que esgrimi com os melhores mestres, em Paris, e 
sou tambm considerado um timo atirador!
- Ento so mais duas qualidades suas que devo admirar.
- No importa o que voc sinta ou no a meu respeito. Sabe por que motivo 
lady Imogen vai dar uma festa amanh  noite?
- Imagino que  para tornar a ver voc!
Sheldon olhou vivamente para Cerissa. No esperava que ela fosse to 
perspicaz.
- Est dando a festa para que voc conhea o irmo, o marqus de 
Wychwood, que foi mandado para Bath porque est fazendo papel de tolo em
Londres, por causa de uma bailarina.
- E voc espera que ele faa... papel de tolo, por minha causa?
- Se voc se tornar a marquesa de Wychwood, sua posio, excetuando a 
realeza, no teria igual na sociedade.
- Eu gostaria disso.
- A famlia Wychwood possui vastas propriedades, uma casa de campo em 
Hertfordshire, alm de uma manso, em Londres, to magnfica como Carlton 
House.
- Parece que  tudo o que sempre desejei - suspirou Cerissa.
- Ento, deve ser fcil. A no ser que Wychwood seja cego!
91
- Talvez seu amor pela bailarina seja to grande, que todas as outras 
mulheres fiquem apagadas perto dela.
- O que voc sabe a respeito de amor? - perguntou Sheldon.
- Sei que, quando se ama realmente uma pessoa, ningum mais existe, no 
mundo inteiro.
- Quem lhe disse essa tolice?
- No  tolice! Era o que papai sentia por mame e ela por ele.  o que 
sei, no ntimo do meu corao, que sentiria, se amasse algum.
- Ento, pelo amor de Deus, case primeiro!
- Talvez eu venha a sentir isso pelo homem com quem casar.
- Essa sorte s existe em contos de fada. Deixe-me dizer uma coisa, 
Cerissa: voc escolheu seu caminho e no deve sair dele. Casar com um 
homem rico, ter uma aliana no dedo,  este o seu objetivo. No adianta 
querer isto e o cu tambm!
- Ento, voc reconhece que amar  o cu!
- No foi o que eu disse.
- Mas sabe que  verdade. Pode haver coisa mais maravilhosa do que estar 
perto da pessoa amada, toc-la, beij-la, saber que nada mais no mundo 
tem importncia?
- Quer parar de dizer tanta tolice? - cortou Sheldon, zangado.
- Andou lendo romances ridculos que fazem com que fique cega para as 
duras realidades da vida.
- No estou cega para o que chama de "duras realidades". Mas nem elas nem 
voc podero impedir que eu sonhe ou saiba, no fundo do corao, como 
deve ser o amor.
Cerissa falou quase soluando, e Sheldon percebeu que estava 
profundamente comovida.
Antes que ele tivesse tempo de responder, a carruagem parou diante dos 
degraus de entrada do White Hart.
Sheldon se deitou no sof da saleta, diante da lareira, com uma manta 
sobre os joelhos. Foi s ento que Cerissa lhe contou que sir Ralph os 
convidara para jantar naquela noite.
- Mande um bilhete recusando o convite - ordenou Sheldon.
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Achou que Cerissa ia protestar, mas, estando de fato muito cansado depois 
do almoo em casa de Imogen, e tambm por causa dos muitos problemas que 
haviam surgido, fechou os olhos.
Cerissa fitou-o, indecisa; depois, foi at a escrivaninha e escreveu o 
bilhete para sir Ralph.
Bobo foi chamado para entreg-lo. Assim que ele saiu da saleta, Cerissa 
sentou-se no cho, ao lado do sof onde Sheldon descansava.
Embora ele estivesse de olhos fechados, Cerissa sabia que no dormia.
Dali a pouco, ela disse, em voz baixa:
- Suponhamos que... mudemos de planos. Suponhamos que arranjemos 
dinheiro, sem que seja preciso eu casar.
- Est realmente pensando em desistir to depressa? Ainda no exploramos 
nem metade das possibilidades de Bath.
- Ontem, achava que, se sir Ralph me pedisse em casamento, eu o aceitaria 
- disse, em voz baixa. - Mas hoje, quando ele me tocou, percebi que seria 
impossvel.
- J lhe expliquei que est querendo demais. A ideia foi sua, Cerissa, de 
querer ser respeitvel e ter uma aliana no dedo. Por que hesita, quando 
est prestes a realizar seus desejos?
- Queria ter uma posio, casar e ser respeitada por todos, mas no 
pensei realmente no que ia acontecer, quando estivesse sozinha com...
meu marido.
- No seu pas, os casamentos so arranjados. Sabe muito bem que, se seu
pai tivesse podido reconhec-la como filha legtima, estaria agora casada 
com algum aristocrata escolhido pelo duque.
- Sim, sei disso. E talvez, como aconteceu com meu pobre pai, estivesse 
casada com uma pessoa montona e rabugenta, com quem acabaria 
antipatizando.
- Isso depende da sorte - observou Sheldon, duro. - Por outro lado, agora 
pode escolher seu marido, enquanto nosso dinheiro durar. - Sheldon 
suspirou. - Em vez de estar aqui deitado, eu deveria estar tentando a 
sorte no jogo. - Atirou a manta para um lado
e sentou-se.
- No, no! Voc est cansado. Espere at amanh.
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- Quando se trata de ganhar dinheiro, no se pode perder tempo! Sheldon 
levantou-se e atravessou o quarto.
- Deixe-me ir com voc. - Cerrisa correu atrs dele e seguroulhe o brao. 
- Por favor, deixe-me ir com voc!
- No! Fique aqui e lembre-se de que, quanto mais dinheiro eu ganhar, 
mais tempo voc ter para escolher um bom marido.
Saiu, e ela voltou para junto da lareira.
Pegou a manta que Sheldon tinha atirado de um lado e apertou-a contra o 
peito.
- Mon Dieu! Por que sou to tola?
A carruagem parou diante da biblioteca e Sheldon desceu.
Vrios cavalheiros estavam sentados em cadeiras confortveis, no centro 
da sala.
Sheldon pegou The Times e o Morning Post e, encontrando uma cadeira vaga, 
abriu um dos jornais, com certa dificuldade.
com a ajuda de Bobo e de Chapman, conseguia vestir o palet, mas ainda 
tinha o brao numa tipia e sentia dor quando fazia algum movimento 
brusco.
Mas estava decidido a ler as notcias.
Acabou de ler The Times, deixou-o de lado e pegou o Morning Post. Nisto, 
um senhor idoso sentou-se a seu lado.
- Creio que o senhor  o magnfico cavalheiro que liquidou aqueles dois 
bandidos, h trs dias.
-  verdade.
- Gostaria de lhe agradecer. No ano passado, me roubaram cinquenta 
guinus de ouro e todas as jias que usava.
-  lamentvel - observou Sheldon.
- Realmente. Meu nome  Walburton. Eu estava dando uma festa, na noite de 
sua chegada.
- Soube disso depois, milorde. Mas, naquela hora, eu no estava em 
condies de prestar ateno a nada.
- Foi o que me disseram. Seu ato foi muito corajoso e, creia-me, muito 
apreciado pelas vtimas dos tais salteadores.
- Acho que deviam ter tomado alguma providncia antes.
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- Os administradores da cidade s pensam em construir e em recolher o 
dinheiro dos turistas - respondeu Walburton.
- Creio que  compreensvel - observou Sheldon, sorrindo.
- Se a gua  trmica, no  por causa dos planejadores modernos. Muitas 
e muitas vezes, tenho dito... - Interrompeu-se, subitamente. - 
Conversaremos sobre isto em outra ocasio, pois vejo
Que quer ler os jornais.
- Eu estava imaginando como os jornais de Londres podem chemar aqui to 
depressa - disse Sheldon.
- Graas s carruagens de mala postal de Palmer. Fazem o traeto entre 
Londres e Bath todos os dias.
- Verdade? Pensei que isso acontecesse s uma ou duas vezes por
semana.
- No. Todos os dias.
- Ento, suponho que algumas das notcias dos jornais de Bath
ftaiam nos jornais de Londres.
- Tem toda a razo - respondeu lorde Walburton. - Antigamente, quando eu
vinha para Bath, era como ir para um pas estrangeiro. Ficvamos longe de
tudo, exceto dos mexericos locais. Mas os tempos mudaram.
- Foi o que supus. - Sheldon se levantou e colocou numa cadeira o
Morning Post, que no chegara a ler.
- O senhor  um heri, aqui em Bath, sr. Harcourt. E garanto que, quando 
chegar a Londres, descobrir que l tambm ouviram falar de sua aventura.
Sheldon no respondeu. Inclinou-se diante do outro, mas, quando saiu da 
biblioteca, tinha uma expresso taciturna.
A festa dada por lady Imogen, na vspera, foi um sucesso. Para dizer a 
verdade, o dia todo foi um sucesso.
Durante o dia, Sheldon tinha ganhado algumas libras no jogo, voltando 
para perto de Cerissa de muito bom humor e contando que dera "uma 
tacada".
Estava to animado, que a moa se sentiu feliz. Conversou bastante com 
ele, at chegarem  casa de Queen's Square.
95
Lady Imogen cumpriu a palavra; os convidados para o jantar eram jovens e 
atraentes. Havia muitas moas para divertirem o irmo da dona da casa.
Mas, como Imogen previra, bastou o marqus olhar para Cerissa, para ficar 
encantado.
No era de admirar, pois Sheldon tinha escolhido o vestido dela com 
cuidado. Em vez do preto que usava desde a chegada a Bath, seu vestido 
era branco, fazendo com que parecesse muito jovem. Ao mesmo tempo, tinha 
uma elegncia sofisticada que s Paris sabia criar.
O broche de brilhantes de sua me cintilava nos cabelos negros; nas mos 
enluvadas levava um leque pintado, muito bonito.
Estava to bela, que Sheldon notou uma expresso indagadora nos olhos 
azuis de lady Imogen. Achando que isto podia significar perigo, ele 
tratou logo de impedir que algo de desagradvel acontecesse, dando-lhe 
toda sua ateno.
Conseguiu isto durante o jantar. Depois, quando a orquestra comeou a 
tocar no salo e os jovens foram danar, lady Imogen o levou para sua 
saleta particular.
Sheldon percebeu que o cenrio estava preparado, com abajures velados, a 
lareira acesa e um sof cheio de almofadas de cetim, diante do fogo.
Depois que ele fechou a porta Imogen se atirou em seus braos. Beijou-a
como ela esperava que fizesse, mas o fez com um ardor mais calculado do 
que sincero.
- Estive esperando por isto - murmurou ela.
As palavras eram desnecessrias, e ele a beijou novamente.
Percebeu que ela era muito ardente. Geralmente se supunha que as louras 
de olhos azuis eram frias, mas Sheldon sabia que podiam ser extremamente
ardentes.
Imogen deu um suspirozinho e levou-o para o sof.
- Tudo vai dar certo, exatamente como planejei. Perequine j est 
encantado com a beleza de Cerissa.
- Os dois so muito jovens - observou Sheldon, achando que devia dizer 
alguma coisa.
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- Ao passo que voc e eu somos mais velhos e no precisamos perder tempo 
nem desperdiar o que o destino nos reservou.
Colou o rosto ao dele. O perfume extico que usava e os movimentos de seu 
corpo eram de um tipo bem conhecido de Sheldon.
Mas Imogen ficou desagradavelmente surpresa, quando ele se libertou de 
seus braos, pondo-se de p.
- Vamos voltar para o salo.
- Por qu? Por que, Sheldon?
- No quero que Cerissa pense que sou um tutor muito indulgente. - Vendo
o brilho de clera no olhar dela, disse, zombeteiro:
- Tenho tambm uma grande predileo por ser o caador, e no
a caa.
Por um momento, pensou que ela fosse ficar furiosa. Mas Imogen zombou 
rindo.
- Sempre imprevisvel! Eu devia ter adivinhado que voc  diferente de 
todos os homens que conheo.
- Deixemos as coisas como esto, por enquanto, para no nos entendiarmos 
cedo demais.
- No estou entediada de voc. Quando nos veremos novamente?
- Avisarei - respondeu ele, lacnico.
- Amanh?
- No tenho certeza de nossos planos.
- Quer dizer que depende de sua pupila? Vou dar um jeito para que 
Perequine a leve a um passeio de carruagem.
- No h problema, mas ela ir acompanhada. Lady Imogen no pde deixar 
de rir.
- Ouvi dizer que sua criada a acompanhou, quando ela veio aqui pela 
primeira vez, com sir Ralph.
- Cerissa  francesa e, como voc sabe, as jeunes filies francesas so 
criadas com muita severidade. No h possibilidade de eu a deixar sozinha 
com um homem, enquanto for solteira.
- Isso  que  ter cuidado!
- Vamos voltar para o salo.
Vendo Sheldon dirigir-se para a porta, ela disse:
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- Est querendo dizer que s depois que a comtesse estiver casada, ou 
talvez noiva,  que voc estar livre para fazer o que quero?
- Voc  quem diz isso - protestou Sheldon. - O que eu realmente disse  
que  difcil fazer planos, quando se tem que cuidar de criatura jovem e 
inocente.
- Quanto mais depressa ela deixar de ser essas duas coisas, melhor! - 
comentou Imogen, num tom brusco.
- No tenho inteno de forar Cerissa a casar.
Sheldon ia pegar a maaneta, mas Imogen fez com que se virasse e colocou 
os dois braos em volta do pescoo dele.
- Vou ajud-lo. Vou ajud-lo, Sheldon, mas no me faa esperar muito.
Beijou-o. Depois, quando achou impossvel que qualquer homem lhe 
resistisse, Sheldon se libertou com firmeza e os dois se dirigiram para o 
salo.
Sheldon foi para um dos sales de festa, onde tinha combinado encontrar-
se com Cerissa.
Se ela estivesse entretida, ele iria para o salo de jogo; caso 
contrrio, a acompanharia at o hotel. Disse a Chapman que esperasse.
Encontrou Cerissa na companhia de vrias senhoras e suas filhas, que a 
moa havia conhecido em casa de lady Imogen. Estavam tomando ch.
Minutos depois, o marqus de Wychwood tinha vindo se reunir a elas.
Na noite anterior, Sheldon achara que o marqus parecia exatamente o que 
ele julgara que seria. Tinha cabelos louros e olhos azuis, como a irm, 
mas sua aparncia era prejudicada pelo queixo muito pequeno, que lhe dava 
um ar de fraqueza. Era muito elegante e tinha uma alegria natural que 
atraa as mulheres.
Sheldon tinha certeza de que o rapaz devia estar achando Bath muito 
maante. Se Cerissa quisesse impedi-lo de voltar para a companhia da 
bailarina, teria que agir depressa.
Mas no havia dvida de que, naquele momento, Perequine achava Cerissa 
mais cativante do que qualquer outra. No tinha olhos para
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mais ningum e no parecia dar ateno s observaes que as moas e suas 
mes lhe faziam.
Ao se aproximar, Sheldon percebeu que o marqus estava com sua cadeira 
virada para Cerissa, dando mostras evidentes de que ela era a nica 
pessoa por quem estava interessado e que, no que lhe dizia respeito, 
ningum mais existia.
Sheldon tocou no ombro de Cerissa. Ao v-lo, ela sorriu e seus olhos se 
iluminaram. Levantou-se de um salto.
- Chegou mais tarde do que eu esperava, monseigneur!
- Tinha certeza de que voc no sentiria minha falta. - Inclinou-se
diante das senhoras com uma graa que elas acharam muito atraente e
depois disse a Cerissa: - Acho melhor lev-la para o hotel. Tenho um
compromisso urgente no salo de jogo.
Umas das senhoras soltou um gritinho.
- Oh, por favor, no v l, sr. Harcourt! Vai arruinar nossos pobres
maridos. Desde que o senhor chegou a Bath, eles andam de bolso furado!
- Garanto-lhe que, em comparao com Londres, no jogamos alto - 
respondeu Sheldon, conciliador. - Para dizer a verdade, as apostas so 
muito baixas.
- Podem ser baixas para os ganhadores. Os perdedores  que se queixam.
- Isso, sem dvida,  verdade. Mesmo assim, no resisto a um jogo de 
cartas e preciso levar minha pupila para o hotel.
- Posso acompanh-los, senhor? - perguntou o marqus. Sheldon ergueu as 
sobrancelhas, como se achasse a sugesto um
tanto estranha.
Ele e Cerissa se despediram do grupo, dirigindo-se para a porta 
principal, passando por salas magnficas, de teto alto e enormes lustres 
de cristal.
A carruagem os esperava.
- Pretende ir conosco, milorde? - perguntou Sheldon ao marqus.
- Se me der licena - respondeu o marqus, avidamente. A comtesse 
prometeu me mostrar algumas das caixas de rap que
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trouxe da Frana, Creio que o senhor sabe que a coleo de meu pai era 
famosa.
- Sim, ouvi falar - disse, Sheldon, cauteloso.
- Comecei minha prpria coleo. - Ao dizer isto, o marqus tirou do 
bolso uma caixa de rap muito bonita, de ouro, com esmalte e pequenos 
brilhantes.
- Oh, que linda! - exclamou Cerissa. - Nunca vi nada mais bonito!
-  sua!
Sheldon tirou a caixa das mos de Cerissa e devolveu-a ao rapaz.
-  muito bonita, mas minha pupila no pode aceitar presentes deste 
valor, como o senhor bem deve compreender. - Havia em sua voz uma nota de 
censura que fez o marqus ficar constrangido.
- Peo desculpas. Falei sem refletir.
-  compreensvel - respondeu Sheldon, de bom humor. - E agora me diga 
quais os seus planos. Quanto tempo pretende ficar em Bath?
- Pretendo ficarum ou dois dias, mas j no tenho pressa de ir embora. -
Fitou Cerissa, mas a moa olhava pela janela e no pareceu entender o
sentido oculto das palavras.
A distncia at o hotel era curta. L chegando, o marqus os acompanhou 
at a saleta particular.
- Espere aqui - disse Cerissa. - Vou buscar as caixas. Entrou no quarto,
deixando os dois homens a ss. Sheldon olhou para o marqus.
- Minha pupila  muito jovem e foi criada com bastante severidade. Nunca 
encontrou ningum como o senhor, em toda sua vida resguardada.
Perequine ficou perplexo.
- Como um homem do mundo a outro, peo-lhe que no a magoe
- disse Sheldon, com um trejeito nos lbios.
No havia dvida quanto  expresso excitada do olhar do marqus.
- Acha que isso  possvel?
- S Cerissa pode responder. Mas no quero que ela sofra.
- Nem eu, senhor! Prometo-lhe!
100 "
Sheldon colocou a mo no ombro do rapaz.
- Obrigado. Sabia que compreenderia.
Quando Cerissa voltou  saleta, Francine a acompanhava, carregando 
algumas das caixas de rap. Colocou-as na mesa e retirou-se 
respeitosamente, sentando-se numa cadeira dura, no canto oposto da sala. 
Depois pegou sua costura, enquanto o marqus e Cerissa examinavam as 
caixas, diante da lareira.
Sheldon olhou para a cena familiar e a expresso cnica acentuou as rugas 
nos cantos da boca. Sem uma palavra, ele saiu, indo para o cassino.
101

CAPTULO VI

- Preciso conversar com voc a ss!
- Meu tutor no permitir.
Cerissa movia-se graciosamente, executando os passos mais complicados do 
minueto.
- Precisamos dar um jeito. Voc est me deixando louco!
- Eu... estou fazendo isso? Como?
A pergunta pareceu muito inocente.
-  o que quero explicar - disse o marqus, de dentes cerrados. Cerissa 
olhou-o veladamente por entre as pestanas e percebeu que
ele se sentia realmente frustrado.
No era apenas para obedecer s instrues de Sheldon que no queria 
ficar a ss com o marqus; era tambm porque no tinha vontade de ouvir a 
declarao de amor, que sabia estar prestes a ser feita.
No h pressa, pensou.
Mas o marqus se mostrava cada vez mais insistente, e Cerissa ficou 
imaginando se poderia cont-lo durante muito tempo mais.
Enquanto danavam sob os lustres de cristal do salo de festas, sabia que 
as damas idosas da nobreza, sentadas junto s paredes, percebiam que o 
marqus estava enfeitiado.
Sheldon no havia exagerado, ao comentar a importncia do marqus e dizer 
que, se Cerissa casasse com ele, teria uma posio que qualquer moa 
invejaria.
Mas no h pressa, pensou.
No entanto, sentia que Sheldon estava apressando as coisas. Na realidade, 
tinha a impresso de que tentava arrast-la para o altar.
Atravs do salo, olhou para ele, sentado num sof, ao lado de lady 
Imogen.
102
Suas cabeas estavam juntas e era evidente que conversavam intimamente.
O marqus notou o olhar de Cerissa e disse:
- Eles no esto preocupados conosco. Vamos sair de mansinho e ir para um 
lugar onde possamos ficar a ss. - Havia em sua voz e em seus olhos uma 
expresso vida, que a deixou constrangida.
No respondeu, e o marqus comentou, quase irritado:
- Minha irm est sendo muito mais eficiente em conquistar seu homem do 
que eu em conquistar voc!
- Que quer dizer com isso?
- No me admiraria muito, se voc acordasse um dia e ficasse sabendo que 
Imogen  sua co-tutora, ou seja l o nome que se d a isso.
Cerissa tropeou no passo seguinte do minueto.
- Voc acha... Quer dizer que...
- Nunca vi Imogen to entusiasmada por um homem - respondeu o marqus, 
com uma risadinha. - Em geral, eles  que correm atrs dela. Mas, com o 
sr. Harcourt, o caso  outro!
Cerissa teve a impresso de que uma mo de ao lhe apertava o corao.
Ento, era isso o que Sheldon estava planejando! Casar com uma mulher 
rica... que lhe daria tudo o que deseja na vida.
Teve a sensao de que a sala rodava e tropeou novamente.
O marqus segurou-lhe a mo com fora e perguntou:
- Est sentindo alguma coisa?
- Estou um pouco tonta - respondeu, baixinho.
Saram do salo e foram para uma saleta onde estavam servindo refrescos.
O marqus fez Cerissa se sentar numa cadeira confortvel e correu para o 
bufe, em busca de um copo de limonada.
A moa aceitou-a, grata, pois sentia os lbios secos. Apesar do calor da 
sala, de repente teve frio.
O marqus sentou-se ao lado dela.
Havia poucas pessoas ali, porque quase todos estavam danando.
- Est melhor?
103
- Muito... melhor, obrigada - Cerissa conseguiu dizer. - Acho que devemos 
ir ao encontro de... sua irm.
- No h pressa. Eu queria lhe dizer o que sinto...
- No agora. No aqui.
- Por que no? Nunca encontro oportunidade e passo as noites acordado, 
pensando em voc. - Havia na voz dele uma paixo que fez com que ela se 
levantasse depressa.
- Monseigneur ficaria zangado, se eu ficasse aqui, sozinha com voc.
- Diabo, ele no est ligando para voc neste momento!
Mas Cerissa j se dirigia para o salo de baile, e ele teve que 
acompanh-la.
Lady Imogen ergueu os olhos, quando os dois chegaram, e sua expresso era 
fcil de entender.
- J deixaram de danar? - perguntou, zangada.
- Cerissa sentiu-se mal - explicou o irmo. - No  de admirar. Estes
sales so sempre muito quentes e muito abafados.
Sheldon olhou para a moa.
- Est indisposta?
- Estou bem... agora - murmurou.
Pensou, desesperada, se ele estaria irritado como lady Imogen, pelo fato 
de o tte--tte dos dois ter sido interrompido.
Ficou imaginando o que estariam dizendo um ao outro e se, como o marqus 
havia sugerido, planejavam casar.
Antes que Sheldon pudesse dizer mais alguma coisa, lorde Walburton 
juntou-se a eles.
- Boa noite, lady Imogen. Boa noite, Harcourt. - Inclinou a cabea para o 
marqus. - Tenho uma fofoca para lhe contar, lady Imogen - disse, 
alegremente.
- O que ? - perguntou ela, sorrindo.
- Lembra-se de D'Arcy Arbuthnot?
- Sim, claro. Jantou comigo, uma noite destas.
- Pois bem, finalmente ele fisgou uma herdeira!
- Verdade?
- Ela  feia, tem no mnimo trinta e cinco anos, mas  rica como
104
Creso!
- Ele merece ter sorte. Foi, sem dvida, persistente! - observou Imogen,
rindo.
- Mais ainda, ele no perdeu tempo - continuou lorde Walburton. - Casaram 
esta tarde, no Octagon.
- O que  isto? - perguntou Sheldon.
-  uma de nossas mais famosas capelas particulares - explicou Walburton. 
- So seis, ao todo, construdas por especuladores, mais com fins 
lucrativos do que como lugares espirituais,
- No so consagradas, mas tm o direito de celebrar casamentos que so 
chamados "fleet marriages", o que significa que no  preciso que haja 
licena, proclamas, nem o consentimento dos pais explicou Imogen.
- No sabia que havia tais lugares em Bath!
- Os casamentos so perfeitamente legais, mas custam caro disse 
Walburton. - Essas capelas atraem vastas congregaes, porque oferecem 
boa msica e pregadores eloquentes.
- So exatamente como a Capela Myfair, de Londres. - volveu Imogen. - Foi 
l que a duquesa de Hamilton casou. Estou contente por D'Arcy, que agora 
pode relaxar e aproveitar a vida luxuosa proporcionada por uma esposa 
rica.
- Ele talvez tenha que fechar os olhos, minha cara - disse Walburton, 
sorrindo. - Ou ento ela lhe dar culos grossos com aro de ouro.
Risos um tanto maldosos acolheram estas palavras. Depois, lorde Walburton 
virou-se para Sheldon:
- Por falar nisso, Harcourt, tenho umas novidades para voc.
- Sheldon ergueu as sobrancelhas. - Havia meia coluna a seu respeito em 
The Times, ontem. Pode ler o jornal, na biblioteca.
- Sobre o seu sucesso ao atirar nos salteadores? - perguntou Imogen.
- Sua coragem  muito elogiada e o jornal comenta que, se todos os 
viajantes fossem to eficientes, logo o pas estaria livre desses 
bandidos.
- Est vendo, Sheldon? Est famoso! - exclamou Imogen, com uma nota 
cariciosa na voz.
105
- Gostaria de... voltar. para o hotel - disse Cerissa, de repente.
Sheldon levantou-se imediatamente.
- Vou lev-la.
- Eu disse que estas salas so quentes demais - queixou-se o marqus. -  
o mesmo que a gente estar nos banhos trmicos!
Colocou a mo sob o brao de Cerissa, para conduzi-la pelo salo. Quando 
se afastavam, a moa ouviu Imogen dizer a Sheldon:
- Volte assim que ela se deitar. Estarei esperando. Ele no respondeu.
A carruagem os esperava no ptio. Sem pedir licena, o marqus tambm 
entrou e sentou-se no banquinho diante do assento.
- Sim, voc precisa descansar, minha cara. Amanh cedo irei pedir 
notcias suas e saber se quer dar um passeio de carruagem disse.
- Obrigada - murmurou Cerissa.
Quando desceram  porta do hotel, Sheldon disse a Chapman:
- No vou mais precisar de voc, esta noite.
- Obrigado. Boa noite, senhor.
- Boa noite, Chapman. Cerissa sentiu um alvio imenso.
Entraram no saguo e ela estendeu a mo ao marqus.
- Boa noite milorde.
- Vai sair comigo, amanh? Preciso v-la.
- Ser um grande prazer... se eu me sentir melhor.
O rapaz apertou a mo dela com fora. Depois, no podendo resistir, 
beijou os dedos de leve.
- Lembre-se de que preciso v-la a ss - disse, baixinho, s sendo ouvido 
por ela.
Cerissa soltou a mo e dirigiu-se para a escada. Sheldon virou-se para o 
marqus.
- Preciso falar com voc. Pode esperar aqui, enquanto acompanho minha
pupila at o quarto?
- Naturalmente.
Sheldon seguiu Cerissa na escada. Quando estavam fora do alcance
106
dos ouvidos do marqus, ela perguntou:
- O que voc tem a dizer a ele?
- Depois lhe conto.
Cerissa no compreendeu a expresso do olhar de Sheldon, mas soube, 
instintivamente, que alguma coisa tinha acontecido; alguma coisa que, sem 
poder explicar, adivinhava que era significativa.
Chegaram  porta do quarto dela.
- O que o preocupa? - perguntou a moa. - Preciso saber. No suporto 
ficar em dvida.
- J disse que depois lhe conto. Agora, v para a cama!
- Voc vem falar comigo depois? Promete?
- Cumprirei minha palavra - respondeu ele, dirigindo-se para a escada.
Cerissa ficou olhando-o, perturbada. Depois, apreensiva e aborrecida, 
entrou no quarto, onde Francine a esperava.
L embaixo, no hall, o marqus esperava diante de uma grande lareira 
acesa.
- Vamos para a saleta de correspondncia - sugeriu Sheldon.
- A esta hora da noite, nunca h ningum l.
No esperou pela resposta do marqus, dirigindo-se para a saleta 
mobiliada com simplicidade, onde se viam quatro escrivaninhas, alm de 
duas poltronas diante de uma lareira onde o fogo morria.
Sheldon fechou a porta e, dirigindo-se para a lareira, disse ao marqus:
- Achei que seria justo contar-lhe que, amanh, Cerissa e eu vamos partir 
para a Esccia.
- Para a Esccia!
- No quis dizer a ela, para no estragar sua festa desta noite, mas  
imperativo partirmos o mais cedo possvel.
- Mas... a Esccia! Por que precisam ir para l?
- Um de meus parentes, de quem devo esperar muito, est gravemente 
enfermo. S espero poder chegar l a tempo.
-  impossvel! Quero dizer... Cerissa precisa ir tambm? Sheldon ficou 
imvel. Houve alguns momentos de silncio, e depois
ele perguntou:
107
- Por que motivo, exatamente, quer que ela fique aqui?
- Eu a amo! Tentei dizer isto a ela, hoje, mas no quis me ouvir! Novo 
silncio. Ento Sheldon falou, lantamente:
- Seria uma falta de responsabilidade de minha parte, como tutor de 
Cerissa, se no lhe perguntasse quais so suas intenes.
O marqus respondeu imediatamente:
- Quero casar com ela! Claro que no h pressa, mas acho que nos daremos 
muito bem.
- Tambm acho. Mas, no que lhe diz respeito, h uma grande necessidade de 
pressa.
- Por qu?
- Acha que posso levar Cerissa para to longe, sem que pelo menos uma 
dzia de homens se apaixonem por ela e a peam em casamento?
- Compreendo - murmurou o marqus. - Precisamos ficar noivos, antes de 
ela partir.
Sheldon encolheu os ombros.
- Um noivado pode ser facilmente esquecido... ou rompido. Os olhos do 
marqus de repente tiveram uma expresso alerta.
- O que est sugerindo?
- Estou sugerindo que, se ama Cerissa, e acredito que sim, ambos devem
casar, antes que ela encontre outro que talvez a atraia mais.
- Quer dizer... casar antes que partam para a Esccia?
- Por que no? - Notou o espanto no rosto um tanto tolo do marqus e 
continuou: - Eu no faria tal sugesto, se no soubesse quais os 
sentimentos de Cerissa. Foi por isto que lhe pedi que no a magoasse. Mas 
agora sei que suas intenes so srias e no vejo razo para que o 
casamento no se realize imediatamente.
- H os meus procuradores... - comeou o marqus.
- Sua irm me disse que ficar livre deles em maio. Seja como for, acha 
que se oporiam a um casamento com uma pessoa bem-nascida como Cerissa?
- No! Claro que no! Alm do mais... - O marqus deu uma risadinha - 
creio que ficariam aliviados, ao ver que mudei de vida,
108
levando-se em considerao o trabalho que lhes dei, no ltimo ano.
- No desejo pression-lo, mas nem mesmo para um acontecimento importante 
como o casamento de Cerissa posso adiar minha partida de Bath para depois
de, digamos, o meio-dia de amanh.
- Ento, temos que casar antes - disse o marqus, como se a ideia fosse 
dele.
- Garanto que  uma deciso acertada. Afinal, talvez voc levasse trs ou 
quatro meses para tornar a ver Cerissa, e todos sabem que "longe dos 
olhos, longe do corao"!
- Vamos casar amanh - declarou o marqus, em tom firme.
- J que est to decidido, preciso tomar as necessrias providncias - 
disse Sheldon, como se relutasse. - Acho que no seria interessante sua 
me e Imogen saberem do que est acontecendo, at Cerissa ser legalmente 
sua esposa. - Fez uma pausa e acrescentou:
- E deve compreender que no desejo que sua irm saiba de minha partida. 
Isto a deixaria triste, e detesto cenas de despedida.
- Compreendo. Se o senhor tiver a bondade de fazer os arranjos 
necessrios, s o que teria a fazer amanh  me comportar normalmente com 
minha me, para que ela no desconfie de nada.
- Vou procurar o proco da Octagon, se  este o nome da capela, logo de 
manh cedo. Se ele no estiver livre para celebrar o casamento, h vrias 
outras capelas. Chegue aqui s onze horas. Venha em seu faetonte, porque 
terei que partir em minha carruagem, assim que a cerimnia terminar.
- Compreendo e fico-lhe muito grato. Fico-lhe realmente muito grato!
Estendeu a mo e Sheldon a apertou.
- Vai dizer a Cerissa o que resolvemos? Creio que  muito tarde para eu 
ir falar com ela.
- Como se sente indisposta - Sheldon respondeu -, tenho certeza de que j 
est deitada. Falarei com ela amanh cedo e sei que vai ficar muito feliz 
com a notcia. Alm do mais, deve estar cansada de viajar, coitadinha!
- Passaremos a primeira parte de nossa lua-de-mel em Bath disse o
marqus. - Depois, iremos para Londres. Ela certamente vai
109
brilhar, l! Uma "Incomparvel", que far com que todas as outras paream 
camponesas!
- Tem razo. Cerissa  uma "Incomparvel" entre as "Incomparveis", e 
voc  um rapaz de sorte!
- Sou, mesmo! E agora sou grato a meus curadores, por no terem permitido 
que casasse com aquela bailarina. Se bem que ela era encantadora!
- Garanto que h muitas mulheres atraentes que vo ficar de corao
partido, quando souberem que voc est preso pelos laos sagrados do
matrimnio - disse Sheldon, com dificuldade para disfarar a ironia na
voz.
O marqus deu uma risadinha.
- Acho que h muita verdade nisso!
Os dois homens saram da saleta. No saguo, o marqus despediu-se de
Sheldon e dirigiu-se para a porta.
- Nem uma palavra  sua irm - recomendou Sheldon. - E lhe apresente 
minhas mais humildes desculpas por no poder voltar ao salo de festas.
- Farei isso. Imogen no vai ficar satisfeita, mas deixe por minha conta.
Dirigiu-se para a porta da frente, saltitante, e Sheldon comeou a subir 
a escada.
- Sujeitinho convencido! - resmungou, furioso. Caminhou pelo corredor e 
bateu de leve  porta de Cerissa.
- Entre!
A moa estava deitada. A nica luz era a da lareira e a de uma vela na 
mesinha-de-cabeceira.
Cerissa estava muito bonita, com os cabelos pretos espalhados sobre os 
travesseiros brancos, os olhos apreensivos.
- Que aconteceu? O que tem para me contar? - perguntou, quando Sheldon a 
fitou sem nada dizer.
Ele atravessou o quarto e foi olhar as chamas da lareira.
- Voc conseguiu! - Falou dali a um momento. - Vai casar com o marqus, 
amanh, ao meio-dia!
- Casar... com o marqus? Que quer... dizer... com isso?
110
Como  que... sabe?
- Porque arranjei tudo. A histria de Walburton sobre as capelas era 
justamente o que eu queria ouvir.
- Mas no h pressa! Por que devo... fazer isso?
- Porque vou partir amanh, assim que se realizar o casamento.
- Por qu? O que aconteceu?
- Vou para a Irlanda. Mas disse a seu futuro marido que vou para a
Esccia.
- No... entendo. No vou casar com ningum, assim, com essa pressa. ...
indecente!
-  o que voc deve fazer, e tem muita sorte por eu ter conseguido 
arranjar tudo.
- Diga-me por qu. Precisa explicar. - Ele hesitou e Cerissa insistiu, 
desesperada: - Preciso saber!
- Vou contar. - Sheldon ficou em silncio durante alguns momentos, como 
escolhendo as palavras. - O motivo de eu deixar a Inglaterra h cinco 
anos foi por ter matado um homem.
- Achei que devia ser alguma coisa assim - murmurou Cerissa.
- Foi num duelo?
- Sim. Infelizmente, meu adversrio era meu primo-irmo, o filho mais 
velho de meu tio, o conde de Donnington.
- Foi por isso que sir Ralph falou de Donnington Park como sendo a manso
de sua famlia.
- Pertencia a meu av e fui criado l, at os quinze anos. Depois, meu
tio herdou o ttulo. Meu pai e minha me, que haviam morado l quando 
vov estava velho e doente, tiveram que procurar outro lugar.
- Foi muito triste para voc.
- Meu pai no tinha vontade de sair, mas no havia outra coisa a fazer. 
Era o segundo filho e nunca se deu bem com o irmo mais velho.
Houve uma pausa. Cerissa pediu:
- Continue! Conte o que houve!
- Meu tio tinha dois filhos. O mais velho era Gervase, um menino 
extremamente desagradvel, que no melhorou com a idade. Sempre me 
detestou e eu tambm no gostava dele.
111
Cerissa ouvia atentamente, as mos entrelaadas, os olhos fixos em 
Sheldon.
Sem olhar para ela, ele continuou:
- Gervase se entregou  bebida. Em Londres, muitas vezes deu grandes 
vexames, de modo que cheguei a ter vergonha de ser seu parente. - Sheldon 
respirou fundo. - Certa noite, no White's, ele se aproximou da mesa onde 
eu estava jogando e comeou a me ofender.
- O que ele fez?
- Insultou-me, praticamente me acusou de trapacear. Depois, repetiu uns 
boatos muito ofensivos sobre uma senhora pela qual eu estava interessado.
- Voc... a amava?
- Digamos que estava enamorado, como qualquer rapaz fica enamorado de uma 
mulher bonita e mais velha.
- Que aconteceu?
- Gervase foi longe demais. Como homem honrado, a nica coisa que pude 
fazer foi desafi-lo. Levantamo-nos da mesa para resolver tudo, de uma 
vez por todas.
- Hlas! Vocs resolveram lutar... naquela hora?
- Era uma noite enluarada e fomos para St. James Park.
- Iam se enfrentar com espadas ou pistolas?
- com pistolas. Gervase teve o direito de escolha e se considerava melhor 
atirador do que eu.
Cerissa respirou fundo.
- Que aconteceu?
- Gervase trapaceou.
- Como fez isso?
- Virou-se quando chegaram ao nmero nove e atirou quando eu ainda estava 
de costas. - Cerissa deu um gritinho abafado. - Felizmente, ele estava 
bbado demais para ter boa pontaria. O tiro arrancou meu chapu. Virei-me 
e atirei.
- E o matou! Mas no foi... culpa sua!
- Foi o que o juiz e os quatro padrinhos, ou testemunhas, decidiram. Mas 
meu tio no quis saber disto.
112
- Voc lhe contou o que aconteceu?
- Contei. Fui visit-lo e expressei meu profundo sentimento pelo 
acontecido. Tentei explicar que minha inteno tinha sido apenas ferir 
Gervase de leve. Se meu primo estivesse onde devia estar, o tiro o 
atingiria no brao, e no no corao.
- Por que seu tio no deu ouvidos  verdade?
- Sempre me odiou e me disse que, se eu no sasse imediatamente da 
Inglaterra, ele informaria os magistrados de que eu tinha pretendido 
assassinar Gervase. Jurou que iria depor e que em vrias ocasies eu 
havia ameaado seu filho de morte!
- Mas era... mentira!
- Claro que era mentira!
- Certamente, voc no seria condenado.
- Um julgamento causaria um terrvel escndalo. Isso no somente deixaria 
minha me desesperada, como humilharia meu pai, que tinha muito orgulho 
do nome da famlia.
- Mas foi uma crueldade! Seu tio foi muito cruel!
- Eu nada podia fazer, a no ser sair da Inglaterra. Meu tio me disse 
que, se eu voltasse, haveria um mandado de priso contra mim!
- C'est impossible! Inacreditvel!
- Foi o que meu pai disse, mas meu tio falava srio.
- Seu pai ainda vive?
- No. Morreu h dois anos.
Houve silncio. Depois Cerissa perguntou:
- Acha que seu tio mandar prend-lo, mesmo agora?
- Tenho certeza. Achei que, vindo para Bath, ningum saberia que voltei, 
que poderia ficar aqui em paz, pelo menos at voc casar. Mas agora...
- Quer dizer que acha que seu tio deve ter lido os jornais?
- Certamente leu The Times.
- Mas, depois de tantos anos, ser que ele no o perdoou?
- Nunca se soube que ele tenha perdoado algum.
- Ento, voc precisa se esconder! Precisa se salvar!
-  o que pretendo fazer, indo para a Irlanda.
113
- L... estar seguro?
- Creio que sim. Principalmente se voc disser que fui para a Esccia. 
Talvez mais tarde eu v para a Amrica. Ouvi dizer que h muitas 
oportunidades l.
- Mas... no pode fazer isso! No pode... me deixar.
- Voc estar casada. Ser a marquesa de Wychwood. Ter tudo o que 
desejou na vida: uma aliana, respeitabilidade e uma posio importante. 
- Deu um sorriso irnico, que ela bem conhecia, e continuou: - Estar do 
lado de dentro das casas importantes, e no do lado de fora.
- Mas preciso ver voc. No posso deixar que v embora desse jeito. No 
posso viver sem saber onde est.
-  melhor assim. Ns nos conhecemos por acaso, talvez um acaso feliz 
para ambos. Certamente, agora, a sorte sorriu para voc.
- Mas preciso ajud-lo, dar-lhe dinheiro. No pode viver com o pouco que 
tem.
- Dupliquei meu dinheiro no cassino, desde que cheguei aqui. Mesmo depois 
de pagar a conta do hotel, terei o suficiente para me sentar a uma mesa 
de jogo em Dublin, sem ficar constrangido. Levarei Chapman comigo e o 
conservarei, enquanto tiver condies de pag-lo.
Havia na voz dele uma determinao que fez com que Cerissa dissesse
- Mas no pode ir embora desse jeito! No pode partir, deixandome aqui, 
como se o tempo em que estivemos juntos nada significasse, como se nada 
tivesse acontecido...
- Conseguimos o que planejamos - interrompeu Sheldon. Voc vai ter um 
marido, embora jovem e um tanto desmiolado, mas  bastante inteligente 
para control-lo.
- Ele no passa de um rapaz aborrecido, estpido! - disse Cerissa, com ar 
petulante. - Quero um homem que cuide de mim.
- O marqus ser muito capaz disso. - Pela primeira vez, desde que 
comeara a contar sua histria, Sheldon fitou-a e disse, rude: 
Naturalmente, h sir Ralph, que, tenho certeza, estaria disposto a
114
lhe oferecer sua... proteo.
Cerissa fez um gesto de desamparo com as mos.
- Pelo amor de Deus, seja grata! - Sheldon quase gritou. O marqus  um 
partido melhor do que jamais esperei que voc pudesse encontrar, apesar 
de toda a sua beleza, menina!
- Eu estava pensando em... voc.
- Esquea de mim. Sou capaz de tomar conta de minha vida.
- E quanto a... lady Imogen?
- Que tem ela?
- O marqus acha que ela quer... casar com voc. Sheldon deu uma risada.
- Duvido. Ao contrrio de voc, ela no quer saber de aliana no dedo.
- Ela o ama!
- Acredita realmente que isso seja amor? - o cinismo da voz dele era 
evidente.
- Se voc ficasse aqui, pelo menos eu poderia v-lo, frequentaramos a 
mesma sociedade.
- Acha que seria satisfatrio? - perguntou Sheldon, com ironia.
- Para mim, seria intolervel. No, Cerissa, seu futuro est traado e 
no tenho inteno de complic-lo.
- Mas voc no complicaria! Estaria perto, quando ou quisesse v-lo, e...
- J disse que no! Agora, vou dormir. Tenho que me levantar cedo para 
fazer os preparativos para o seu casamento e para a minha partida.
Dirigiu-se para a porta.
- Sheldon! Monseigneur! - gritou Cerissa. - coutez! Escute,
tnonseigneur...
Mas Sheldon no se virou. Saiu do quarto e fechou a porta.
- Monseigneur!
Cerissa atirou longe as cobertas, como se fosse sair da cama. Depois, 
compreendeu a inutilidade de tentar det-lo. Ficou sentada na cama, 
imvel.
- Eu o amo - disse, baixinho. - E amanh, depois do meio-dia,
115
nunca mais o verei! - Agora percebia que o amava h muito tempo, mas se 
forava a no reconhecer isto, a no deixar que os sentimentos 
interferissem em suas decises. - Eu o amo! Eu o amo! - As palavras 
pareciam ser ditas por outra pessoa, tornando-se cada vez mais altas, at 
que todo seu corpo vibrou. - Eu o amo! Je Vadore!
Embora nunca tivesse dito nada a ele, Cerissa achou que Sheldon devia ter
percebido que seu corao se derretia, sempre que ele chegava perto,
sempre que os olhares de ambos se encontravam.
Talvez por isto no olhara para ela, enquanto contava a histria de seu 
exlio, falando-lhe do perigo em que agora se achava. Ele devia ter visto 
o amor de Cerissa brilhar em seu rosto.
Mas, se ia embora mesmo assim, era por que no se importava. No se 
interessava por ela, como no se interessava por lady Imogen, que tinha 
muito mais para lhe oferecer.
Pensou em Sheldon indo para a Irlanda, desaparecendo num pas que 
provavelmente ela jamais visitaria e que sabia ser bastante primitivo.
- Nunca mais o verei - murmurou, desesperada, sentindo qu todo seu 
futuro era escuro, vazio e sem esperana. - Amei-o desde o momento em que
o conheci.
Lembrou-se de como Sheldon tinha parecido bonito, quando se levantara da 
poltrona diante da lareira, no Hotel d'Angleterre, em Calais.
Ele a havia beijado. Pelo menos, Cerissa teria esta recordao.
Reconhecia agora que no houvera uma noite em que no fosse para a cama 
sem tentar, antes de dormir, sentir de novo o gosto dos lbios dele, a 
fora dos braos que a tinham enlaado.
Aquele beijo a estragara, porque nunca mais um homem poderia toc-la, nem 
mesmo para lhe beijar a mo, sem que ela sentisse repulsa, como tinha 
acontecido com sir Ralph.
E, nessa noite, quando os lbios do marqus tocaram seus dedos, sentira 
um frio percorrer-lhe as veias, como se ele fosse um rptil.
Ele no passa de um rapazinho estpido e leviano!, disse a si mesma.
Depois, assustada, lembrou-se de que ele era bastante homem para
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querer dela um pouco mais do que um simples beijo!
No baile, havia no olhar do marqus uma expresso que Cerissa no podia 
deixar de interpretar. A mesma coisa acontecera com sir Ralph, e Cerissa 
compreendeu, desesperada, que queria, a todo custo, ficar longe do 
marqus. Se ele se aproximasse demais, ela teria vontade de sair 
correndo, em busca de proteo.
E quem significava proteo, desde aquela noite, em Calais, a no ser 
Sheldon?
Eu o amo! Eu o amo!
Sempre voltava ao mesmo ponto, sentindo pulsar o corao, sentindo um 
anseio que fazia com que soubesse que no poderia viver sem ele.
Cerissa empurrou de novo as cobertas e saiu da cama.
Francine tinha deixado o nglig numa cadeira. Maquinalmente, a moa o 
vestiu, dirigindo-se para a porta.
Mas, antes de virar a maaneta, hesitou.
Se fosse procurar Sheldon, o que lhe diria?
Ele no a queria; no podia sustent-la. Lembrou-se de suas palavras: 
"Quem viaja s, viaja mais depressa".
Eu seria um estorvo, pensou.
Lentamente foi para perto da lareira.
Sheldon arranjara sua vida e ela nada podia fazer, a no ser aceitar o 
marqus e ficar grata por ele ter tanta coisa a lhe oferecer. Era o tipo 
de casamento que sempre havia desejado, a respeitabilidade que queria 
ter, a aliana que a me nunca tivera.
A marquesa de Wychwood! Mostrarei a esses aristocratas convencidos, que 
sempre fizeram pouco caso da mame, o quanto ligo para eles!, pensou, 
triunfante.
Lembrou-se ento de que quase todos estavam mortos, que eles haviam sido 
guilhotinados e suas cabeas tinham cado numa cesta ensanguentada.
- A quem estou impressionando? Quem liga para o que fao? disse, em voz 
alta.
Sua voz pareceu ecoar na saleta deserta. Depois, Cerissa caiu no tapete, 
diante da lareira, e comeou a chorar.
117

CAPTULO VII

com um gesto exagerado, Chapman fez a carruagem parar na frente do White 
Hart.
Sheldon pulou, antes que um dos empregados do hotel pudesse abrir a 
porta.
Estava atrasado, porque no conseguira convencer o proco do Octagon a 
cancelar um compromisso anterior, tendo que ir procurar outra capela onde 
o casamento de Cerissa pudesse ser celebrado.
Finalmente, localizou o capelo de St. Mary, o mais velho dos procos das 
capelas de Bath. Agora estava tudo arranjado, mas tinha levado mais tempo 
do que previra.
Quando subia a escada, viu Bobo no alto, ao lado da bagagem do patro. 
Teria passado sem uma palavra, mas Bobo o deteve.
- Perdoe, monsieur - disse o ano, em voz baixa, para no ser ouvido 
pelos outros empregados. - Mas, h poucos minutos, dois cavalheiros 
vieram aqui, perguntando pelo senhor.
Sheldon ficou imvel.
- Que aparncia tinham?
- Acho que so funcionrios de alguma repartio, monsieur. Um deles era 
idoso e o outro, jovem. Bem vestidos, mas ps  Ia mode, vous comprenez?
- Compreendo perfeitamente - respondeu Sheldon, em voz dura.
- Onde esto eles?
- Mandei-os embora. Perguntaram se o senhor estava hospedado aqui e 
respondi que um cavalheiro da alta sociedade estaria no York House Hotel.
- Foi muito inteligente, Bobo.
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Entrou apressadamente no hotel, achando que talvez Bobo soubesse tanto de 
seus negcios quanto ele prprio!
Parecia incrvel que ura artigo em The Times produzisse resultados to 
rpidos, mas no tinha dvida sobre a identidade dos homens e de quem os 
mandara.
Atravessou o saguo e, ao chegar ao p da escada, viu que o marqus vinha 
descendo.
Um olhar para o rosto geralmente inexpressivo foi suficiente para Sheldon 
perceber que alguma coisa estava errada.
Esperou que o marqus chegasse ao ltimo degrau e perguntou:
- Que aconteceu? Lamento chegar atrasado, mas tive dificuldade em 
encontrar um proco.
A expresso do outro era um misto de desespero e incredulidade.
- Cerissa se recusa a casar comigo!
- Ela se... recusa? - A pergunta soou como um tiro de pistola.
- Sim, ela se recusa! Diz que no me ama.
Sheldon prendeu a respirao e fez um esforo para no sorrir.
- E acreditou nela? Meu caro rapaz, certamente sabe que todas as mulheres 
ficam nervosas no dia do casamento e tm medo da responsabilidade.
- Ela foi muito positiva - declrou o marqus, taciturno.
Os dois tiveram que se afastar para o lado, para deixar um dos hspedes 
subir a escada.
- No podemos conversar aqui - disse Sheldon. - Vamos para a saleta.
Felizmente, a sala estava vazia. Sheldon fechou a porta e disse:
- Foi pena eu no estar aqui, quando voc chegou, mas, ao sair hoje de 
manh, Cerissa estava muito feliz com a ideia de casar com voc.
- Agora, no est feliz.
- Claro que no. Cerissa  muito moa e, naturalmente, essa pressa a 
perturbou. Mas ela o ama, meu rapaz, e  s isto o que importa, no
momento.
- Outras mulheres se mostraram ansiosas para casar comigo.
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- Naturalmente! Voc  um rapaz simptico, e Cerissa o acha muito 
atraente. Mas deve compreender que  sempre difcil, para uma jeune 
filie, no ter medo do homem com quem vai casar, simplesmente porque ele 
... um homem.
O marqus empertigou-se todo.
- Sei que ela  muito inexperiente e inocente.
-  por isso que tem que ser muito delicado e compreensivo com ela.
- Acha que ela vai querer casar comigo?
- Tenho certeza. - Respondeu Sheldon, com firmeza. - Garanto que neste 
momento ela est chorando, porque acredita que voc a levou a srio. 
Espere at eu falar com ela.
- No desejo casar com uma moa que no me queira.
- Cerissa no  qualquer moa.  nica,  linda,  uma jovem francesa 
muito sensvel, capaz de sentir as mais profundas emoes, quando estas 
forem despertadas pela primeira vez.
Havia agora um sorriso nos lbios do marqus e um brilho em seu olhar.
- Talvez eu tenha sido precipitado, ao acreditar que ela havia mudado de 
ideia. Mas parecia to decidida!
- Voc devia t-la tomado nos braos. - Sheldon disse. - Os atos so mais 
convincentes do que as palavras.
- Tem razo! Claro que tem razo! Sheldon olhou para o relgio sobre a 
lareira.
- O capelo est  nossa espera. Vou buscar Cerissa e devemos partir 
imediatamente. - Puxou o cordo da campainha e disse: Pea uma garrafa de 
champanhe, meu rapaz. Acho que precisamos de uma taa, para nos 
fortificarmos um pouco. Depois, no haver mais espera.
Sheldon saiu e subiu os degraus da escada de dois em dois. Abriu a porta 
da saleta e viu Cerissa na outra extremidade, percebendo, pela expresso 
dela, que o esperava. Sheldon bateu a porta.
- Que diabo pensa que est fazendo. - Perguntou, furioso.
- No posso... casar com ele!
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Essas palavras mal puderam ser ouvidas.
Ela estava usando um longo vestido de gaze. Antes de sair do hotel,
Sheldon tinha dito a Francine que fizesse com que Cerissa o vestisse. Mas
a moa no colocara o chapu com borda de renda, nem estava usando o 
casaco enfeitado de pele.
As chamas da lareira brilhavam em seus cabelos.
- Vai casar com ele, e vamos para a capela imediatamente! Encarou-a com 
uma determinao quase brutal.
- No posso e no quero casar com o marqus.
- Ficou maluca? No percebe que  uma oportunidade que talvez nunca mais
aparea?  muito pouco provvel que encontre outro marido to importante 
e to malevel como o marqus. - Viu que Cerissa apertava os lbios, 
obstinada, e gritou, furioso: - Pode imaginar um homem que no seja dbil 
mental casando com uma mulher de quem nada sabe, como acontece com o 
marqus, a seu respeito?
Cerissa no respondeu, e ele continuou:
- Suponhamos que ele faa algumas investigaes. O que acha que vai 
descobrir a respeito de uma migre francesa desconhecida, que ele est 
disposto a transformar em marquesa?
Cerissa virou o rosto. Sheldon, que agora estava perto dela ordenou:
- Olhe para mim e oua! Lentamente, ela o encarou.
- O marqus acabaria descobrindo que tudo o que fizemos no passou de 
embuste e de mentiras! - Seu tom era to violento, que ela fez um gesto 
de protesto. Mas ele no a deixou falar. - Voc no  comtesse de la
Tour! Esqueceu-se de que, na realidade,  a filha natural do duque? Ele
no casou com sua me!
Cerissa deu um grito, como o de um animal ferido.
- Encare os fatos, sua idiotazinha! E agradea a Deus por lhe dar a
oportunidade de se tornar respeitvel, de viver a vida que sempre 
desejou!
Fez uma pausa como que para respirar melhor. Como sua voz encolerizada 
fora retumbante, o silncio agora pareceu mais pungente.
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Cerissa ainda olhava para ele. Estava muito plida, mas de cabea 
erguida. Devagar e distintamente, para que ele ouvisse bem cada palavra, 
disse:
- Non! No casarei com ele, e voc no me obrigar.
- Droga! Vai casar com ele, nem que eu tenha que bater em voc, at que 
fique inconsciente e possa arrast-la ao altar!
Pegou-a pelos braos e sacudiu-a violentamente. Ela no pde resistir  
fora que ele empregou. Mas a violncia quebrou as defesas de Cerissa, 
que gritou:
- Amo voc! Amo voc! Como  que posso casar com outro homem, se amo 
voc?
As palavras saram entrecortadas, enquanto Sheldon a sacudia. Quando 
percebeu o que ela dizia, ele ficou imvel, de repente. Suas mos 
continuaram nos ombros de Cerissa, mas agora parecia feito de pedra.
A moa estava ofegante, com lgrimas nos olhos, e olhou para Sheldon com 
ar de splica.
- Eu amo voc. Deixe-me ficar. Serei o que voc quiser: sua criada, sua 
amante, qualquer coisa. Mas no posso deix-lo. - Teve um soluo que veio 
do fundo do corao e murmurou: - Trabalharei para voc, farei o que me 
pedir, mas no posso deixar que outro homem toque em mim.
As lgrimas agora lhe escorriam pelas faces, e, seu rosto, bonito, apesar 
da expresso infeliz, estava virado para Sheldon.
com uma exclamao que mais parecia um gemido, ele a tomou nos braos e a 
beijou.
Por um momento, foi um beijo duro, cruel e ela sentiu uma dor quase 
intolervel. Depois, sentindo que Cerissa lhe correspondia,  que seu
corpo se comprimia contra o dele, Sheldon a beijou com menos
violncia, mas ao mesmo tempo mostrando-se mais insistente, mais
exigente.
Era como se ambos estivessem famintos um do outro, e, agora que as 
barreiras tinham cado, se tornassem indivisveis, uma pessoa s.
Sheldon apertou-a com mais fora ainda. Cerissa mal podia respirar, no 
tendo conscincia de nada, a no ser de que pertencia a
122
ele, que no eram mais duas pessoas, e sim uma. Sentia um xtase 
inigualvel, uma sensao maravilhosa que soube ser o amor.
A sala onde estavam, o mundo  volta deles, nada existia para ela, alm 
de Sheldon.
Uma chama os consumia, a ambos, levando-os ao auge da paixo.
Sheldon ergueu a cabea.
- Oh, cus, como  que pde fazer isto comigo?
- Eu o amo... Je t'aime! Je t'aime!
Cerissa no estava mais plida. Tinha as faces coradas e os olhos 
brilhavam como estrelas.
- Minha querida, meu amor, minha adorada! Tentei evitar que isto 
acontecesse, mas voc tornou tudo difcil para mim.
- Sou sua... No posso viver sem voc...
- Mas ter que viver sem mim, meu amor! No compreende?  preciso!
- Sabendo que nos amamos, como qualquer outra pessoa me interessaria? - 
Falou com tanta paixo, que os braos de Sheldon a apertaram mais e de 
novo ele procurou beij-la.
Mas conteve-se, dizendo:
- No adianta, minha querida. Eles esto atrs de mim. Bobo conseguiu 
despist-los, mas me encontraro, a no ser que eu saia de Bath 
imediatamente.
- Vou com voc.
- No posso permitir isso. O marqus est  sua espera, l embaixo.
- Acredita realmente que, agora, eu poderia casar com ele? Fitou Sheldon 
com olhos brilhantes e de novo ele achou que
nada mais existia no mundo, a no ser eles dois.
- Est mesmo disposta a me acompanhar? - perguntou, rouco.
- Para o exlio, para a pobreza? Se eles me apanharem e eu for condenado,
poderei ser deportado. Ou ento condenado a uma longa pena.
- Ficarei esperando por voc. Esperei at agora para encontrar algum 
como voc. Ningum me impedir de am-lo para todo o sempre.
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- Minha querida! Minha amada! O que posso dizer?
- Diga o que quero ouvir.
- Que a amo? Voc sabe disto. Foi uma agonia, uma tortura indescritvel, 
estar a seu lado e no poder toc-la, ter que entreg-la a outro homem.
- E no conseguiu fazer isso...
- Minha querida, tem certeza? Eu no suportaria que voc se arrependesse 
de fazer esse sacrifcio e mais tarde me recriminasse.
- Acha que eu faria isso?
Sheldon fitou-a, nunca imaginara que uma mulher pudesse parecer to 
feliz, to radiosa, to extasiada.
- Tem razo. Nada tem ou nada ter importncia, a no ser o nosso amor. - 
Beijou-a e sentiu que toda ela vibrava de paixo. Soltou-a, ento, 
dizendo: - Precisamos ir. No h tempo a perder. Depois que sairmos de 
Bath, se formos espertos, poderemos dificultar a tarefa deles, de nos 
encontrarem.
- Francine j levou a bagagem para baixo.
- Pretendia ir comigo de qualquer jeito?
- Pretendia segui-lo... descala... de joelhos. Nada do que voc fizesse, 
ou dissesse, me impediria.
- Minha adorada!
E ento, quando Cerissa ia pegar a capa, houve uma batida  porta.
Subitamente, os dois ficaram imveis, entreolhando-se.
A cor desapareceu do rosto dela e as rugas de Sheldon se acentuaram.
- Entre!
Um dos empregados do hotel entrou.
- Dois cavalheiros desejam v-lo, senhor.
Sheldon e Cerissa estavam de frente para a porta. Ele sentiu uma mozinha 
fria insinuar-se entre a sua e apertou-a com fora.
Dois homens entraram na saleta. O primeiro, vestido de maneira correta e 
simples, era idoso e tinha cabelos grisalhos; o outro, mais moo, tinha 
pestanas claras que faziam com que parecesse um castor.
Ambos se aproximaram e se inclinaram cortesmente.
Sheldon no disse nada. Cerissa sentia os lbios secos e um n na 
garganta.
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- Estou falando com o sr. Sheldon Harcourt? - perguntou o homem mais 
velho.
Desesperada, a moa pensou que at parecia que ele estava no banco dos 
rus, diante do advogado de acusao.
- Sim, est.
- Pensvamos que estivesse no exterior, sr. Harcourt. Foi por acaso que,
ao ler The Times, anteontem, ficamos sabendo de suas aventuras em Bath.
Sheldon inclinou a cabea. Se tivesse permitido que os salteadores o 
roubassem, pensou, todo o curso de sua vida teria sido outro.
- O artigo foi muito lisonjeiro, sr. Harcourt.
- Foi o que ouvi dizer. No o li - respondeu Sheldon, friamente.
- Confesso que foi uma sorte eu ler o artigo, porque isso evitou uma 
investigao longa e difcil, j que estamos em guerra com a Frana.
- Compreendo.
- Acontece que acho que o senhor no vai poder chegar a tempo para o 
enterro, que se realiza hoje, mas certamente poder providenciar uma 
cerimnia religiosa, daqui a uma ou duas semanas.
- Enterro? Enterro de quem?
- De seu tio, o conde de Donnington. Morreu h quatro dias, de um ataque 
do corao, e imediatamente procuramos entrar em contato com o senhor.
- Por qu?
O homem idoso pareceu surpreso.
- O senhor , naturalmente, o herdeiro de seu tio. Na realidade, milorde, 
 o oitavo conde de Donnington.
Por um momento, Sheldon no pde acreditar no que ouvia. Depois, uma voz 
que, estranhamente, no parecia a dele, perguntou:
- Mas meu primo, Richard... o segundo filho de meu tio...
- Creio que, pelo fato de estar no exterior, milorde, no ficou sabendo 
da morte de seu primo, h mais de um ano. Um infeliz acidente.
- No. No fiquei sabendo de nada - disse Sheldon, agora conseguindo 
controlar a voz.
- Sei que isso deve ser um choque, mas precisa compreender que
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sua presena  necessria, para cilidar dos vrios problemas que surgiram
com a morte inesperada de seu tio. - O homem hesitou. Fiquei sabendo, no
balco de recepo, que o senhor vai sair hoje de Bath. Posso perguntar
se seria possvel que fosse imediatamente para Donnington Park?
- Estou de pleno acordo. O velho pareceu satisfeito.
- Isso tornar as coisas mais fceis para todos ns, milorde. Olhou de
relance para Cerissa e continuou: - Talvez seja melhor que eu e meu
auxiliar os deixemos a ss, para que faam seus planos. Vamos esperar l 
embaixo, at que mande nos chamar.
Os dois se inclinaram respeitosamente e saram. Por um momento, Cerissa e 
Sheldon ficaram imveis.
Depois, num murmrio que ele mal ouviu, a moa perguntou:
- Voc ainda... me quer?
Ele a enlaou meigamente, como se compreendesse que no havia mais 
necessidade para a pressa que antes os tinha dominado.
Beijou os cabelos de Cerissa. Depois, pegou-lhe o queixo e fez com que 
virasse a cabea para ele.
Pelo medo do olhar e pelo tremor dos lbios, percebeu o que ela estava 
pensando e fitou-a longamente, antes de dizer:
- Voc queria ser uma senhora respeitvel, minha querida.
- Compreenderei, se no quiser casar com uma... aventureira. S o que 
peo  para ficar... a seu lado.
Sua voz quebrou-se num soluo e ela escondeu o rosto no ombro de Sheldon.
Ele continuou segurando-a nos braos e disse, suavemente:
- Eu me sentiria muito s, em Donnington Park, sem uma esposa para cuidar 
de mim. - Percebeu que Cerissa prendia a respirao e continuou: - Quer 
casar comigo, minha adorvel aventureira? Talvez
v achar a vida um tanto montona, depois de toda a excitao que 
tivemos! A responsabilidade  uma coisa aborrecida, mas talvez pssamos
suport-la juntos.
- Oh... Sheldon! - Cerissa agora chorava, as lgrimas escorrendo-lhe 
pelas faces, mas eram lgrimas de felicidade. - Eu o amo...
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Oh, monseigneur, eu o amo de todo o corao... Mon chri, no h ningum 
no mundo, a no ser voc.
Beijaram-se novamente e ficaram abraados com fora, como duas pessoas 
que, num desastre, tivessem escapado da morte por um triz.
- Voc me quer? Realmente me quer, agora que tem tudo? perguntou ela.
- Acha que eu ia querer outra coisa?
-  verdade? E no precisamos mais ter medo?
- Voc vai ser minha esposa e eu a protegerei at o fim da vida.
- Foi o que sempre desejei... segurana. Sabia que s voc me daria isto. 
Mas voc me disse que eu devia obedecer  cabea, e no ao corao.
- Mesmo assim, voc me desobedeceu!
- Vous savez... minha cabea foi derrotada, mas meu orao triunfou!
- No futuro, voc me obedecer... e tambm agir com decoro! Cerissa 
olhou para Sheldon por sob as longas pestanas midas, para
ver se ele falava srio.
- Tenho que ser cordata, empertigada e fria, como uma verdadeira dama 
inglesa?
- Como uma condessa inglesa... muito correta!
- Hlasl Acho que vou voltar para a Frana. Ir para a guilhotina seria
mais divertido!
Sheldon riu e puxou-a contra o peito.
- No pode escapar de mim. Se tentar, eu lhe darei uma surra!
- Voc ... tres imprieux - As palavras eram mais uma carcia do que uma
acusao.
- Estou loucamente apaixonado e sou muito ciumento! Cerissa prendeu a
respirao.
-  verdade? Vraiment! - Viu a resposta nos olhos dele e continuou: - Tive tanto cime de lady Imogen...Je deteste cette femme Queria bater
nela, arrancar seus olhos!
- Tendo visto voc, como  que eu podia olhar para outra mulher? Os
lbios de Sheldon impediram Cerissa de responder. Foi um beijo
duro exigente, apaixonado, que a deixou totalmente cativa.
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Dali a momentos, ele murmurou:
- Quero voc! Oh, cus, como a quero, minha bem-amada!
- E eu... quero voc. - De novo, lanou a Sheldon um olharzinho
provocante. - No sou inglesa. Sou francesa e... trs pssionnel
Ele a afastou, com esforo. Pegou a capa e colocou-a nos ombros da moa.
Entregou-lhe o chapu e disse:
- Vamos.
- Para Londres?
- Vamos casar. O capelo est esperando e j paguei a taxa. Ento, por 
que desperdiar esse dinheiro?
Os olhos de ambos se encontraram e eles riram.
- Oh, mon cher monseigneurl Meu maravilhoso... maravilhoso... Sheldon.
- Minha querida! - Ainda rindo de pura alegria, pegou a mo de Cerissa. - 
Afinal de contas, sou apenas um conde. Tem certeza de que no seria mais 
acertado aceitar o dono de um ttulo mais importante, que est  sua 
espera l embaixo?
- No estou interessada em ttulos, nem em respeitabilidade, nem mesmo 
numa... aliana. Agora sei que h apenas uma coisa que desejo na vida.
- E isso ?
- L'amour et toi. O amor e voc. Significam a mesma coisa.
Os olhos de ambos se encontraram por um momento, e sentiram a chama do
amor que os abrasava.
Ento, autoritrio, Sheldon puxou Cerissa para a porta.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
